Família alemã iniciou travessia entre Guaratuba e Matinhos em pequenos barcos em 1949
Família alemã iniciou travessia entre Guaratuba e Matinhos em 1949

Antes da existência do ferry boat e da construção da Ponte de Guaratuba, a ligação entre Guaratuba e Matinhos, no litoral do Paraná, era feita por pequenos barcos de madeira que transportavam pedestres. Esse serviço teve início em 1949, realizado por um casal recém-chegado da Alemanha.

O início da travessia

Na época, Guaratuba era uma cidade pacata, com apenas 4,4 mil habitantes, segundo o Censo de 1950 do IBGE. Atualmente, a população é de quase 45 mil pessoas. O comércio e os serviços eram escassos, com poucas escolas e unidades de saúde. Foi nesse contexto que a família alemã de Emilio e Emilia Krüger começou a fazer o transporte após vencer uma licitação do Governo do Estado.

O casal chegou ao Brasil em 1940, fugindo do ápice do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Conforme Natalia Krüger, bisneta do casal, eles usaram as economias trazidas da Alemanha para comprar dois pequenos barcos destinados ao transporte de pedestres.

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As embarcações e o impacto

As embarcações eram simples, com capacidade para seis a sete pessoas, e percorriam o mesmo trajeto que, anos depois, seria realizado pelo ferry boat, inaugurado em 1960. Apesar da estrutura modesta, o serviço representou um novo começo para Guaratuba, facilitando o deslocamento entre os municípios. “Nesses barcos, várias famílias construíram uma história com um objetivo: atravessar o município de Matinhos para Guaratuba pela baía e ali compartilhavam momentos de trabalho, passeio e rotina”, conta Natalia.

O acesso antes do ferry boat

Antes do ferry boat, Guaratuba era uma cidade isolada do restante do Paraná. Segundo o historiador Clécio Tkachechen, barcos vindos de Paranaguá descarregavam alimentos e produtos essenciais em um trapiche. As atividades diárias, como ir a hospitais ou explorar novos comércios, eram feitas em municípios vizinhos, sempre por meio de barcos.

Uma alternativa era a Estrada de Garuva, aberta em 1950, que passava por Santa Catarina para chegar ao litoral paranaense. No entanto, o acesso era difícil, pois a estrada era de terra e ficava intransitável quando chovia. A estrada foi asfaltada em 1966, mas para os moradores do litoral, a travessia pela água continuou sendo mais rápida.

A chegada do ferry boat e o desenvolvimento

Com as novas opções de travessia, a população de Guaratuba começou a crescer, gerando pressão por melhorias na ligação com o restante do Paraná. O ferry boat surgiu como a melhor alternativa. Construído pelo imigrante português João Lopes Rodrigues, o primeiro transporte tinha capacidade para 12 veículos e 100 pessoas.

“A partir do momento em que começa a ter possibilidade de trazer mais pessoas, de movimentar mais pessoas, a cidade começou a se desenvolver mais. Conforme o tempo foi passando, a quantidade de pessoas foi aumentando e houve essa pressão no transporte”, relata Clécio.

Atualmente, o sistema contava com seis embarcações, entre ferry boats, balsas e rebocadores. Segundo o DER-PR, nas temporadas de verão, mais de 1,5 milhão de pessoas atravessavam a baía. Contudo, o aumento da procura gerou filas e alguns acidentes ao longo da concessão.

Apesar dos problemas, a facilidade de acesso impulsionou o desenvolvimento da cidade e do litoral. “A cidade começou a evoluir com a construção de alguns hotéis, de alguns locais para o pessoal permanecer. O próprio mercado imobiliário começou a evoluir, com várias construções”, explica o historiador.

A Ponte de Guaratuba

O sonho da Ponte de Guaratuba estava previsto na Constituição do Estado do Paraná desde 1989, que determinava a realização de concorrência pública para sua construção. As obras começaram em outubro de 2023 e foram concluídas em abril de 2026, com investimento de mais de R$ 400 milhões.

Com a inauguração da ponte, o ferry boat será descontinuado gradualmente. O trajeto, que levava de 25 a 30 minutos com o ferry, poderá ser feito em até dois minutos pela ponte. “Para as pessoas que trabalham em Paranaguá, Matinhos, Praia do Leste e moram em Guaratuba, é desgastante ter que passar todo dia pelo ferry boat. O ferry boat perde a beleza, porque é bonito; a passagem é um passeio. Mas para quem passa todo dia, perde o encanto”, relata Clécio.

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O ferry se despede como símbolo de uma época que conectou pessoas e histórias pelas águas da baía de Guaratuba, enquanto a ponte inaugura um novo capítulo para o litoral paranaense.