Boina amarela: símbolo de integração dos calouros de medicina da USP Ribeirão Preto
Boina amarela: símbolo dos calouros de medicina da USP Ribeirão

A boina amarela tornou-se um símbolo marcante para os calouros do curso de medicina da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Durante os primeiros 100 dias de aula, os novos estudantes usam o acessório amarelo por toda a cidade, funcionando como um verdadeiro passaporte de integração. Médicos formados e veteranos, ao avistarem a boina, oferecem caronas e até pagam refeições em lanchonetes e restaurantes locais. A tradição, vivenciada atualmente pela 75ª turma, teve início em 1953 e, ao longo de sete décadas, resistiu a períodos de proibição durante a ditadura militar, consolidando-se como uma rede de apoio que atravessa gerações.

Origem da boina amarela

A tradição começou com a primeira turma do curso, em 1952. Como pioneiros, os estudantes não tiveram veteranos. No ano seguinte, decidiram criar uma recepção para a segunda turma, inspirados pelos alunos de odontologia, que usavam boné vermelho, e de farmácia, que usavam gravata borboleta amarela. Segundo relato de Hemil Riscalla, aluno da primeira turma, o grupo inicialmente escolheu o boné verde como símbolo. Contudo, não encontraram o item em Ribeirão Preto, e Riscalla foi à capital paulista em busca. Lá, encontrou um estoque de 60 boinas amarelas, que cabiam no orçamento. A compra gerou debate, mas os alunos acabaram aceitando a ideia. O que era para ser uma brincadeira pontual tornou-se permanente.

Cerimônia de entrega e uso

A entrega da boina ocorre na quinta-feira da primeira semana de aulas, durante a semana de recepção. Segundo Mateus Tavares, vice-presidente do Centro Acadêmico Rocha Lima, a cerimônia inclui um juramento e brincadeiras conduzidas pelos veteranos do segundo ano. A partir daí, a boina deve ser usada todos os dias, em qualquer lugar, por 100 dias. O calouro Leonardo de Abreu Ribeiro, de 18 anos, descreve o momento como a materialização do sonho de entrar na USP. Inicialmente tímido, ele logo percebeu a rede de apoio que a tradição proporciona, recebendo caronas e ajuda de veteranos.

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Sentimento de conquista e acolhimento

Para o cirurgião vascular e professor Marcelo Bellini Dalio, formado na 45ª turma, a boina simboliza a vitória após superar um concurso difícil. Ele relembra que, como estudante, recebia caronas e tinha contas pagas por médicos formados. Hoje, retribui o gesto sempre que vê um calouro. Essa rede de apoio é sentida por alunos de diferentes gerações. Mateus Tavares relata que já teve compras de supermercado pagas por um veterano. A boina amarela, por sua cor vibrante, chama atenção e é reconhecida por toda Ribeirão Preto.

Proibição durante a ditadura

Durante a ditadura militar (1964-1985), o uso da boina foi considerado subversivo e proibido dentro e fora do campus. Segundo Hemil Riscalla, os militares proibiram o adereço, e cinco turmas ficaram sem usá-lo. Após o fim do regime, a tradição foi retomada. O Centro Acadêmico Rocha Lima realizou homenagens para entregar boinas atrasadas aos ex-alunos que foram impedidos. A primeira turma, criadora da tradição, só recebeu suas boinas em 2002, durante a festa de cinquentenário do curso.

Solidariedade e o 'Adeus Boina'

Para garantir inclusão, o Centro Acadêmico passou a custear as boinas, que custam cerca de R$ 57, por meio de rifas. O excedente ajuda calouros de baixa renda com despesas de viagem e estadia. Após os 100 dias, a festa 'Adeus Boina' marca o fim do período de calouro. Durante o uso, a parte externa da boina recebe assinaturas de veteranos. Na despedida, os alunos viram a boina do avesso e a parte interna é assinada pelos colegas de classe. O evento termina com uma foto clássica em frente ao prédio central, com as boinas empilhadas sobre o busto do professor Zeferino Vaz.

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