Mulher sobrevive três horas agarrada a poste durante enchente histórica em Ubá
Mulher sobrevive 3h agarrada a poste em enchente em Ubá

Mulher sobrevive três horas agarrada a poste durante enchente histórica em Ubá

Um vídeo de poucos segundos registra a impressionante resistência de uma mulher que se manteve agarrada a um poste por três horas, travando uma luta dramática pela vida em meio à força devastadora de uma enxurrada. Edna Almeida Silva, de 56 anos, moradora do Centro de Ubá, na Zona da Mata mineira, sobreviveu à maior inundação dos últimos anos no município, um evento que transformou ruas em rios e deixou um rastro de destruição.

"Eu dei tudo o que eu tinha e o que Deus me deu para sobreviver. Foi um milagre, minha fé me salvou. E dentro do possível eu tô tentando recuperar. Ontem eu já consegui jantar um pouquinho, hoje eu consegui tomar um cafezinho", contou Edna, visivelmente emocionada, em entrevista ao g1. Três dias após a tempestade que levou sua casa e o restaurante que administrava, localizados na Rua Camilo dos Santos, ela vive um misto intenso de gratidão por ter sobrevivido e de dor profunda por tudo o que a água levou.

A perda material e a angústia pela falta do namorado

A perda material, porém, não se compara à agonia que Edna enfrenta enquanto aguarda notícias do namorado, Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos, com quem pretendia se casar no próximo mês. Ele também estava na casa na noite do desastre, mas foi levado pela enxurrada e é um dos dois desaparecidos registrados em Ubá. A esperança de um reencontro mantém Edna em alerta, acompanhando as buscas realizadas pelas autoridades.

Após se segurar por três horas no poste, Edna foi finalmente resgatada sob aplausos dos vizinhos que acompanhavam a cena angustiante. O momento do salvamento, capturado em vídeo, mostra a força comunitária em meio ao caos. A empresária, que perdeu todos os seus pertences, agora depende de doações e campanhas organizadas por familiares nas redes sociais para recomeçar a vida.

A batalha pela vida em meio à enxurrada

Na noite de segunda-feira (23), Edna estava em casa com o namorado e o filho, de 31 anos. A chuva começou fraca, mas, com o passar das horas, ganhou uma força assustadora. Ela acordou todos e tentaram retirar os carros da garagem, sem imaginar que a água seria mais rápida e avassaladora. Na madrugada, o rio que passa atrás da residência transbordou e se transformou em uma forte enxurrada, invadindo tudo com violência.

"Não tive tempo de raciocinar. A água subindo, subindo, subindo. E aí deu aquele estrondo e parece que a água fez um redemoinho e me derrubou. Eu fiquei submersa. Eu não sei nadar, eu não sei sair de água. A única coisa que me veio à mente foi eu pedir: 'Senhor, não me deixe morrer afogada'", relembrou Edna, detalhando os momentos de pânico. Suas mãos, então, alcançaram algo arredondado. Quando percebeu que era um poste, ela o abraçou com todas as forças que restavam.

Aproveitando os entulhos trazidos pela água, Edna conseguiu subir o mais alto possível para manter o rosto fora d’água. Foi nesse instante que avistou um vizinho na sacada e gritou por socorro. Momentos depois, outro morador conseguiu jogar uma corda, que ajudou Edna a se manter próxima ao poste até que o volume da água começasse a baixar.

"Meu vizinho falou 'você não vai mais embora, estou te segurando'. Mas eu estava perdendo força e eles falavam para eu ter paciência, para eu ter fé. Quando eu consegui encostar o pé no chão, me puxaram e colocaram na janela de uma casa. Eu só perguntei: 'Moço que horas são?' Ele falou pra mim 'Dona Edna, são 5h20 da manhã'", contou ela. O sol começava a nascer quando Edna soube que havia ficado cerca de três horas em meio à enxurrada, agarrada ao poste.

À espera de um novo milagre

Depois de sair da água, Edna tomou um banho quente na casa de uma vizinha e, em seguida, foi até o restaurante, localizado a 150 metros da residência. Ao ver tudo destruído, não conseguiu conter as lágrimas. "Eu peguei a única cadeira que sobrou, sentei e fiquei olhando. Eu agradecia. 'Senhor, obrigada por eu e o Bruninho estarmos vivos. Não tenho roupa, não tenho calçado, não tenho telefone, não tenho documento. Só sobrou a minha vida pra recomeçar'", desabafou.

Nas redes sociais, familiares iniciaram uma campanha para arrecadar dinheiro e doações para esse recomeço tão necessário. A empresária, que sobreviveu ao que considera um milagre, agora alimenta a esperança de que outro possa acontecer, trazendo notícias do namorado desaparecido. "Eu ainda tenho esperança de encontrar ele em hospital ou outra cidade, não sei. Mas, do jeito que estava a enchente, é só outro milagre", concluiu, com voz trêmula.

'Maior inundação dos últimos anos' atinge Ubá

A enchente histórica, que atingiu o município entre a noite do dia 23 e a madrugada do dia 24 de fevereiro de 2026, vitimou pessoas e deixou centenas de desabrigados e desalojados. Segundo informações da prefeitura, em aproximadamente três horas e meia, foram registrados cerca de 174 milímetros de chuva, provocando alagamentos de grande proporção, danos estruturais severos e impactos significativos na rotina da cidade.

De acordo com medições realizadas na área central, o Rio Ubá atingiu a marca de 7,82 metros, resultando na "maior inundação dos últimos anos", com danos descritos como severos pela administração municipal. A prefeitura informou que foram atendidas 18 ocorrências, incluindo resgates e salvamentos. Pontes foram danificadas e precisaram ser interditadas, enquanto prédios e uma casa desabaram completamente.

A Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e as polícias Militar e Civil atuaram intensamente nas ocorrências, trabalhando para minimizar os estragos e prestar auxílio à população afetada. A cidade de Ubá, assim como outras na região, enfrenta um longo processo de reconstrução após ser arrasada por uma força da natureza que deixou marcas profundas na comunidade.