Em Juiz de Fora, Minas Gerais, uma operação de busca intensa mobiliza bombeiros, voluntários e a Defesa Civil desde segunda-feira (23). O foco principal está no bairro Paineiras, onde dois irmãos – um menino e uma menina – permanecem desaparecidos após deslizamentos de terra causados por fortes chuvas. A equipe do Jornal Nacional acompanhou de perto este drama humanitário, documentando a luta diária para localizar as crianças entre os escombros.
Nova tragédia após breve trégua
Logo após a edição do Jornal Nacional de quarta-feira (25), o céu desabou novamente sobre a região. Uma torrente de água, barro e lama desceu do morro, forçando os socorristas a acelerarem a retirada de moradores em risco. As pessoas evacuavam suas casas em estado de choque, tomadas pelo desespero diante da força da natureza.
Com a trégua das chuvas a partir da madrugada de quinta-feira (26), a busca revelou mais um capítulo trágico: quatro corpos foram encontrados no Jardim Burnier – uma criança e três adultos. A descoberta aumentou a tensão entre as famílias que aguardam notícias de seus entes queridos.
Esperança que não se apaga
A aposentada Adriana Reis personifica a resistência humana frente à tragédia. Ela permanece no local, esperando por notícias de sua neta de 9 anos, desaparecida no desabamento de uma casa. “Enquanto não encontrar, eu não saio daqui não. E está sendo difícil, muito difícil, porque vai para três dias e não consegue encontrar o corpo dela”, desabafa a avó, demonstrando a dor que atinge tantas famílias na região.
O esforço para localizar os desaparecidos não cessa. Voluntários se revezam em turnos exaustivos no bairro Paineiras, removendo entulho dos escombros dia e noite. O acesso é perigoso – um escadão íngreme dá apenas uma pálida ideia da destruição que existe no topo do morro.
União em meio à tragédia
Rian Reis integra este esforço coletivo, buscando um casal de irmãos que são seus primos – as mesmas crianças que Adriana espera encontrar. “Isso daqui é união. A minha família é muito unida. Até as pessoas que são amigos, que nem conhecem a gente, vieram aqui para ajudar. Estamos todos em um só grupo, em uma só força”, afirma Reis, destacando como a tragédia uniu a comunidade.
A destruição é avassaladora. Em uma das casas atingidas, quase nada restou em pé. Uma árvore gigantesca desceu do morro, com seu tronco atravessado entre duas residências. A cena é tão caótica que se torna difícil compreender o que existia no local antes da tragédia.
Tensão constante no local
Os bombeiros trabalham em condições extremas, reforçando estruturas de paredes para evitar novos desabamentos enquanto buscam os dois irmãos desaparecidos. “Você sente toda a tensão, um aperto no peito de quem trabalha aqui. É como se o ar ficasse mais difícil de respirar”, descreve César Tralli, repórter que acompanha as buscas.
Do ponto mais alto, é possível ver a água descendo sem parar do morro, e a visão da destruição se torna ainda mais impactante. Cada detalhe reforça a magnitude da tragédia que atingiu Juiz de Fora.
Vigilância constante
Entre os muitos voluntários, Raissa Prudêncio assume uma função crucial: proteger as equipes de resgate. Seu trabalho é monitorar constantemente as pedras e o morro, pronta para emitir alertas ao menor sinal de movimento. “Eu faço barulho no apito para o pessoal descer, evacuar a área aqui”, explica a voluntária, que se dedica exclusivamente a esta tarefa.
O tenente Henrique Barcellos, do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, ressalta a importância deste trabalho: “Um trabalho que pode parecer monótono, mas é um dos mais importantes: olhar, todo momento, para aquele talude e, no menor indício de movimento de terra, apitar e alertar para que todos saiam por uma rota de segurança e não sejam atingidos”.
Solidariedade que transcende
Frederico Gonçalves é um exemplo desta corrente de solidariedade. Ele largou seu trabalho para se juntar aos voluntários, enfrentando três dias de batalha contra o tempo e os escombros. “A gente quando vê à distância, a gente acha que não vai acontecer com a gente, próximo da gente”, reflete Gonçalves sobre como a proximidade com a tragédia transforma perspectivas.
Mesmo em meio ao sofrimento, momentos de pausa servem para aliviar a tensão e recuperar forças. A dor é compartilhada coletivamente, como observa César Tralli: “Não tem como não dividir essa dor, né?”. A resposta de Gonçalves ecoa o sentimento de todos os envolvidos: “Nunca. Não tem jeito”.
Assim, cada pessoa envolvida nesta operação dá o melhor de si – dos profissionais treinados aos voluntários que deixaram suas rotinas para ajudar. É um exemplo de humanidade e resiliência em meio a uma das maiores tragédias recentes de Minas Gerais, onde a esperança de encontrar sobreviventes ainda mantém todos unidos em um propósito comum.



