Enchente em Ubá-MG devasta polo moveleiro e causa prejuízos bilionários
A cidade de Ubá, em Minas Gerais, enfrenta um cenário de destruição após a enchente que atingiu a região no dia 23 de fevereiro. O evento, considerado uma das maiores tragédias da história local, deixou um rastro de devastação no principal polo moveleiro da cidade, que é o terceiro maior do país e o maior do estado mineiro.
Impacto econômico devastador
Um levantamento realizado pela Associação Comercial de Ubá revela dados alarmantes: mais de 94% dos estabelecimentos comerciais foram atingidos pelas águas. O prejuízo estimado pode chegar a impressionantes R$ 500 milhões, afetando profundamente a economia local que depende fortemente do setor moveleiro.
O calçadão da Rua São José, principal ponto de comércio da cidade, assim como fábricas e lojas instaladas no entorno do Rio Ubá, foram severamente impactados. Proprietários agora tentam calcular os danos e retomar as atividades em meio a um cenário de completa desorganização.
Testemunhos da destruição
"Foi um volume tão grande de água que ela rodou dentro da empresa. Então misturou peças. Algumas ficaram em cima das máquinas, outras foram carregadas pela água", relatou Stefan Paschoalino, proprietário de uma fábrica que produz móveis para todo o país.
Sua empresa possui mais de 60 equipamentos na linha de produção, alguns avaliados em até R$ 3 milhões cada. Atualmente, esses equipamentos estão recebendo limpeza especial realizada por alunos do curso técnico do Senai, em uma tentativa desesperada de recuperação.
"Estamos desmontando os componentes eletrônicos, fazendo uma limpeza geral usando álcool etílico para ver se funciona", explicou Célio Paschoalino, ex-diretor do Sesi/Senai e voluntário na iniciativa de limpeza.
Dimensão do setor moveleiro afetado
Ubá possui aproximadamente 470 empresas no setor moveleiro, sendo que pelo menos 50 foram diretamente atingidas pela enchente. Desse total, 36 já estão mapeadas com danos considerados graves.
O balanço parcial indica que cerca de 12 mil produtos foram atingidos no dia da enchente, incluindo cômodas, guarda-roupas e armários de cozinha. A cidade emprega cerca de 16 mil trabalhadores dentro da indústria moveleira, tornando o impacto social tão significativo quanto o econômico.
"Ubá é o terceiro polo moveleiro do país, o maior de Minas. É um movimento ainda muito conturbado, mas acredito que nos próximos dias muitas das coisas serão ajustadas", destacou Gilberto Coelho, presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Mobiliário de Ubá.
Risco de fechamento temporário
A situação é tão crítica que, segundo a Associação Comercial, mais da metade das empresas avalia a possibilidade de fechar temporariamente se não receber apoio financeiro imediato.
"Dos micro e pequenos, 83% declarou que não tem condição de voltar se não tiver apoio de crédito, ajuda do Governo ou outra forma de captar recurso financeiro", ressaltou Elias Coelho, presidente da Associação Comercial.
Tragédia humana se soma às perdas materiais
Além dos enormes prejuízos econômicos, a cidade registra sete mortes causadas pelo temporal. O corpo de Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos, ainda não foi localizado, com o Corpo de Bombeiros em seu 11º dia de buscas.
Luciano foi arrastado pela correnteza próximo à ponte da Rua Antônio Batista. Ele é namorado de Edna Almeida Silva, a mulher que resistiu por três horas abraçada a um poste para não ser levada pela enxurrada.
Segundo os bombeiros, as equipes de resgate trabalham de forma conjunta em várias frentes para localizar a vítima, em uma operação que já se estende por quase duas semanas.
Desafios da reconstrução
A cidade agora enfrenta o duplo desafio de reconstruir sua infraestrutura física enquanto tenta reerguer sua principal atividade econômica. As ruas do entorno do Rio Ubá foram devastadas pela enchente, exigindo obras de recuperação que devem demandar tempo e recursos significativos.
O movimento de reconstrução ainda é descrito como "muito conturbado" pelos líderes empresariais, mas há esperança de que nos próximos dias algumas normalizações possam ocorrer, especialmente com o apoio de iniciativas voluntárias como a dos alunos do Senai.



