Chuvas históricas castigam Minas Gerais com tragédia humana e destruição
A Zona da Mata de Minas Gerais enfrenta uma das piores tragédias climáticas de sua história. As chuvas intensas que começaram na noite de segunda-feira (23) já resultaram em pelo menos 30 mortes e deixaram 39 pessoas desaparecidas, segundo os levantamentos mais recentes. Cenas de desespero e destruição se espalharam pela região, com moradores tentando resgatar vizinhos ilhados, casas desabando completamente e ruas transformadas em rios furiosos que carregavam tudo pela frente, incluindo veículos e até caixões de uma funerária.
Juiz de Fora: epicentro da tragédia com números alarmantes
Juiz de Fora emerge como a cidade mais afetada por esta calamidade. O Corpo de Bombeiros local registrou, até a noite de terça-feira, um triste balanço de 24 óbitos confirmados e 37 desaparecidos. A situação é tão grave que a prefeita Margarida Salomão (PT) decretou estado de calamidade pública ainda durante a madrugada, medida que foi prontamente reconhecida pelo governo federal. A cidade de Ubá, localizada a 111 quilômetros, também sofreu severamente, contabilizando seis mortes e dois desaparecidos, enquanto Matias Barbosa igualmente decretou calamidade pública.
Mais de 3.000 pessoas estão desabrigadas apenas em Juiz de Fora, segundo informações da prefeitura. Essas famílias receberam acolhimento emergencial e estão alojadas provisoriamente em 15 escolas da cidade. Como medida de segurança, as aulas em todo o município foram suspensas e os servidores públicos que atuam na sede da prefeitura foram orientados a trabalhar remotamente.
Volume pluviométrico recorde e consequências devastadoras
Os números meteorológicos explicam a dimensão da catástrofe. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou, até as 18h de terça-feira, um acumulado impressionante de 605,6 mm de chuva em Juiz de Fora. Este volume torna fevereiro de 2024 o mês mais chuvoso da história da cidade, superando em cerca de três vezes e meia a média histórica do município, que é de 170 mm. O período mais crítico ocorreu entre 18h e meia-noite de segunda-feira, quando quase 150 mm de chuva caíram em apenas seis horas na região de Nossa Senhora de Lourdes, conforme medições do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
"Juiz de Fora é um município que tem um conjunto de morros que ultrapassam 100 metros de altura, do topo à base. Ao mesmo tempo, tem uma rede de drenagem muito volumosa. Por isso há dois problemas simultâneos. O de movimento de massa, com deslocamento de encostas, e o transbordamento de rios", explica Miguel Felippe, professor do departamento de geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
A intensidade das precipitações provocou o transbordamento do rio Paraibuna e levou à interdição da ponte Vermelha e do túnel Mergulhão. Em Ubá, a situação não foi menos grave: cerca de 170 mm de chuva caíram em aproximadamente três horas e meia, fazendo o rio Ubá atingir 7,82 metros de altura e causando inundações em área urbana que afetaram diversos bairros, ruas e estabelecimentos comerciais.
Resposta governamental e alertas para os próximos dias
O governador Romeu Zema (Novo) decretou luto oficial de três dias em todo o estado de Minas Gerais e afirmou: "Minas está presente e fará tudo o que estiver ao seu alcance para amenizar esse sofrimento". Do governo federal, os ministros Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) e Adriano Massuda, interino do Ministério da Saúde, foram enviados à região para coordenar as ações de socorro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se encontra em viagem pela Índia e Coreia do Sul, manifestou-se sobre o episódio através das redes sociais e relatou ter telefonado diretamente para a prefeita de Juiz de Fora para prestar solidariedade e garantir apoio federal.
Contudo, a situação pode se agravar ainda mais. A Defesa Civil estadual alerta que o avanço de uma nova frente fria poderá provocar mais chuvas intensas nesta quarta-feira, inicialmente na Zona da Mata e no sul e sudoeste de Minas Gerais. O boletim do Cemaden para este dia classifica o risco na região como muito alto tanto para alagamentos quanto para deslizamentos de terra.
A prefeita Margarida Salomão foi enfática sobre a gravidade do momento: "É uma situação extrema, que permite medidas extremas". Ela destacou que a cidade precisa de um período de recuperação e que as equipes estão se desdobrando para socorrer as pessoas e salvar vidas. O vice-governador Mateus Simões (PSD) fez um apelo urgente: "Temos que começar a tratar da ocupação irregular no Brasil. É previsível que aconteceria uma coisa como essa, e é absolutamente devastador pensar que nós temos idosos e crianças soterradas aqui".
Outras regiões mineiras também merecem atenção especial, segundo o Cemaden, incluindo a região metropolitana de Belo Horizonte e de Ipatinga, no Vale do Aço, onde o risco é alto para alagamentos e movimentação de massa. A população que recebeu alerta de risco de deslizamento deve deixar os imóveis imediatamente, conforme orientação das autoridades.



