Um relatório divulgado pela Médicos Sem Fronteiras (MSF) nesta terça-feira, 28, acusa as autoridades israelenses de utilizar a privação deliberada de água como arma contra a população palestina na Faixa de Gaza. O documento, intitulado “Água como arma: a destruição e privação hídrica e de saneamento por Israel em Gaza”, detalha como a prática ocorre em paralelo à destruição de instalações de saúde, residências e à morte de civis, além de deslocamentos forçados em massa.
Destruição sistemática da infraestrutura hídrica
De acordo com o relatório, Israel destruiu ou danificou cerca de 90% da infraestrutura de água e saneamento em Gaza, incluindo usinas de dessalinização, poços e sistemas de esgoto. Equipes da organização também relataram ataques a caminhões-pipa claramente identificados e a destruição de poços que eram a única fonte de água para dezenas de milhares de pessoas.
“As autoridades israelenses sabem que sem água a vida acaba, mas, mesmo assim, destruíram deliberada e sistematicamente a infraestrutura hídrica em Gaza, ao mesmo tempo em que bloqueiam consistentemente a entrada de suprimentos relacionados ao abastecimento de água”, alertou Claire San Filippo, coordenadora de emergência da MSF.
Impactos na saúde e violação do direito internacional
Segundo Filippo, “palestinos têm sido feridos e mortos simplesmente por tentarem ter acesso à água”. Ela acrescentou que “essa privação, combinada com condições de vida precárias, superlotação extrema e um sistema de saúde colapsado, cria o cenário perfeito para a propagação de doenças”.
A água é um direito humano básico, e negar esse direito viola o Direito Internacional Humanitário e as Convenções de Genebra, constituindo um crime de guerra, de acordo com especialistas das Nações Unidas.
Bloqueio e dificuldades humanitárias
A escassez de água é agravada por ordens de deslocamento emitidas pelo Exército israelense, que dificultam a atuação de equipes humanitárias. Entre maio e novembro de 2025, uma em cada cinco distribuições de água realizadas pela MSF não conseguiu atender à demanda. Desde outubro de 2023, itens como combustível, geradores, peças de reposição e produtos químicos para tratamento de água têm sido restringidos ou impedidos de entrar em Gaza.
A organização pede que Israel restabeleça imediatamente o fornecimento de água em níveis adequados e que aliados pressionem pelo acesso humanitário, incluindo a entrada de materiais essenciais para infraestrutura hídrica.
Consequências devastadoras
O relatório alerta para os impactos severos da falta de água potável e de condições mínimas de higiene na saúde da população de Gaza, citando um aumento de doenças, incluindo infecções respiratórias, doenças dermatológicas e diarreicas.
No início do mês, as Nações Unidas e a União Europeia informaram que serão necessários US$ 71,4 bilhões (cerca de R$ 355 bilhões) para reconstruir a devastada Faixa de Gaza durante a próxima década, de acordo com estimativas de um estudo realizado com o Banco Mundial. O levantamento considera os danos materiais, as perdas econômicas e as necessidades de recuperação e reconstrução após dois anos de guerra.
Nos primeiros 18 meses, a previsão é de que sejam necessários US$ 26,3 bilhões (R$ 130,7 bilhões) para restabelecer serviços essenciais, reconstruir infraestruturas básicas e impulsionar a recuperação econômica. Os prejuízos diretos à infraestrutura somam cerca de US$ 35,2 bilhões, enquanto as perdas econômicas e sociais chegam a US$ 22,7 bilhões. Os setores mais afetados são habitação, saúde, educação, comércio e agricultura.
Mais de 371 mil residências foram danificadas ou destruídas, assim como quase todas as escolas palestinas. Mais da metade dos hospitais está fora de funcionamento, e a economia do território sofreu retração de 84%. Cerca de 1,9 milhão de pessoas foram deslocadas, e mais de 60% da população perdeu suas casas. Segundo fontes médicas citadas pela ONU, ao menos 72 mil palestinos morreram e outros 172 mil ficaram feridos desde 7 de outubro de 2023.



