Alta do Petróleo na Guerra do Oriente Médio: Discrepância Entre Governo e Mercado
Um alto funcionário do governo dos Estados Unidos declarou nesta segunda-feira (23) que os impactos da guerra no Oriente Médio sobre os preços da energia serão passageiros, uma visão que diverge significativamente da percepção de muitos executivos presentes no maior evento mundial do setor energético.
Até sexta-feira (27), a cidade de Houston, no Texas, sedia o CERAWeek, fórum que reúne cerca de 10 mil profissionais de um segmento profundamente afetado pelo conflito e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz. No entanto, o secretário de Energia americano, Chris Wright, insistiu na abertura do evento que essas perturbações são "temporárias".
Otimismo Oficial Versus Preocupações do Setor
"Atualmente, enfrentamos turbulências de curto prazo, mas os benefícios de longo prazo serão enormes. Pensem nos próximos anos e décadas para vocês e seus filhos: verão um mundo muito melhor", afirmou Wright posteriormente ao canal CNBC.
O governo de Donald Trump, envolvido no conflito ao lado de Israel, lida com a impopular alta dos preços da gasolina a poucos meses das eleições de meio de mandato. Entre as medidas para conter os valores, os Estados Unidos suspenderam parcialmente sanções ao petróleo russo e iraniano, destinadas a reduzir as receitas desses países.
Paralelamente, Trump anunciou na Flórida que negociava o fim das hostilidades com autoridades iranianas não identificadas, provocando uma queda de aproximadamente 10% nos preços do petróleo.
Alertas de Líderes do Golfo e Empresários
Grandes dirigentes do Golfo cancelaram sua participação no CERAWeek devido à guerra, incluindo representantes da Saudi Aramco e da Adnoc. Sultan Al-Jaber, diretor-geral da Adnoc, enviou uma mensagem de vídeo com tom contrastante ao dos americanos.
Ele descreveu o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã como "terrorismo econômico contra todos os países" e enfatizou: "Não devemos permitir que nenhum país faça Ormuz refém, nem agora, nem no futuro".
Mike Wirth, CEO da Chevron, avaliou que os mercados energéticos subestimaram o impacto do conflito, ao apostar em uma solução rápida. "A Ásia, em particular, enfrenta preocupações reais com o abastecimento de petróleo e derivados", destacou. Ele advertiu que, mesmo após o fim da guerra, "será preciso tempo para reconstruir as reservas", somado ao reparo da infraestrutura danificada.
Patrick Pouyanné, diretor-executivo da TotalEnergies, previu preços do gás "muito elevados até o verão" no hemisfério Norte se o Estreito não for reaberto, alertando que a Europa precisará de grandes volumes para encher reservas antes do inverno.
Investimentos em Energia Fóssil e Críticas Ambientais
O governo americano anunciou que reembolsará a TotalEnergies em cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) pela desistência de dois projetos de parques eólicos marinhos. A empresa francesa reinvestirá o valor em energias fósseis nos Estados Unidos, especialmente em um projeto de GNL.
Durante o governo Biden, os EUA avançaram na construção de parques eólicos como parte do combate às mudanças climáticas. Trump reverteu essa iniciativa, alegando que as usinas eólicas "enfeiam a paisagem e produzem eletricidade cara". Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, ele reativou a produção de carvão e fomentou petróleo e gás.
Em Houston, o diretor da TotalEnergies afirmou que a energia eólica marinha "não é o método mais barato para produzir eletricidade" nos EUA. Doug Burgum, secretário do Interior de Trump, complementou: "Este governo acredita nas realidades energéticas, não nos fantasmas climáticos".
Fora do fórum, cerca de 100 manifestantes protestaram contra os danos ambientais da indústria petrolífera. A ativista Chloe Torres, 28, residente no Texas, comentou: "Estamos ficando rapidamente sem água, e a grande maioria dos consumidores são instalações industriais de combustíveis fósseis".
Michael Crouch, médico aposentado de 79 anos, destacou: "A guerra no Oriente Médio está ligada ao petróleo. Pela primeira vez, aqueles que ostentam o poder são descaradamente honestos sobre isso".



