A banda Fresno, ícone do rock nacional, retorna à cidade onde tudo começou para uma apresentação especial e gratuita. Neste sábado (16), o grupo sobe ao palco montado no Parque da Redenção, em Porto Alegre, a partir das 20h. O show integra a programação da Semana S, promovida pelo Sistema Fecomércio-RS/Sesc/Senac e IFEP, com entrada franca.
Raízes gaúchas na música da Fresno
Com mais de duas décadas de estrada e o recém-lançado 11º álbum, intitulado Carta de Adeus, a Fresno mantém uma relação visceral com o Rio Grande do Sul. O vocalista Lucas Silveira explica que a capital gaúcha não é apenas um cenário, mas parte constitutiva da identidade da banda. “Muito do que a gente faz diz respeito a Porto Alegre. O nome da cidade aparece em músicas nossas. O nome do Parque da Redenção, onde a gente vai tocar, é o nome de um álbum inteiro”, afirmou o músico em entrevista ao g1.
Silveira destaca que é possível traçar um verdadeiro mapa do estado nas letras da banda. A faixa O Resto é Nada Mais, do disco Infinitos (2012), menciona Mostardas e o Pinhal, municípios do Litoral gaúcho com forte ligação familiar. “É um lugar que não tem nada, mas é impossível que uma pessoa com alguma sensibilidade vá lá e não sinta alguma coisa diferente”, descreve o vocalista, que visita a região anualmente.
O berço no 4º Distrito
A origem da Fresno tem endereço preciso: um quartinho nos fundos de uma casa na esquina das ruas Arabutã e França, na fronteira entre os bairros Navegantes e São Geraldo, no 4º Distrito. Embora a casa tenha sido demolida, Silveira ainda percorre aquelas ruas quando está em Porto Alegre. “O começo foi ali. Boa parte dos três primeiros discos foi composta naquele quarto, onde eu e meu irmão ficávamos o tempo inteiro”, relembra.
A cena que moldou a banda era a dos pequenos espaços como o Garagem Hermética e o Bar do João, na Avenida Osvaldo Aranha. “O primeiro show da banda foi no Garagem Hermético. A gente conserva muitas coisas dessa época: desse jeito de pensar a música, a criação, a gestão de uma carreira”, afirma Silveira. Ele também credita parte do sucesso inicial ao uso pioneiro da internet como ferramenta de divulgação: “A gente faz parte da primeira geração de bandas que percebeu que a internet era uma ferramenta muito poderosa para divulgar o som”.
Show no Redenção: fechando um ciclo
O retorno ao Parque da Redenção tem um significado especial para a banda. Foi ali que, anos antes de qualquer palco, um jovem Lucas Silveira distribuía flyers xerocados anunciando apresentações. “De certa forma, uma versão minha de 18 anos está ali entregando flyer de show. E tem essa banda mais antiga fazendo um show na Redenção. Esse show tem a dimensão do lapso temporal, de unir a Fresno do início com a Fresno de agora”, reflete.
Novo álbum e o debate sobre inteligência artificial
Com Carta de Adeus, a Fresno também traz à tona uma discussão contemporânea: o que se perde quando a criação musical é delegada a algoritmos? Silveira é categórico: “Eu poderia, no meu quarto agora, botar cinco prompts e sairia uma música que parece uma música da Fresno, para quem ouve de forma desatenta. Mas aquela voz não seria a minha, a bateria não seria do Guerra. Aquela coisa que está sendo falada não foi vivida, ela não existe”.
Para o vocalista, a conexão genuína com os fãs é construída sobre experiências reais. “A mente que escreveu aquelas músicas não viveu as coisas que eu vivi, não viu o que eu vi, não aprendeu o que eu aprendi e não cometeu os erros que eu cometi. É uma coisa vazia”, afirma. Ele admite que a música gerada por IA pode ter utilidade em contextos específicos, mas traça uma linha clara: “A gente não faz música para preencher um tempo ou sonorizar alguma outra coisa. A gente faz música para se expressar de forma profunda e buscar a identificação das pessoas”.
O show deste sábado promete ser um marco na trajetória da banda, unindo passado e presente em uma celebração da música feita com alma e história.



