Há seis anos, a comerciante Jaqueline Teles mudou completamente o rumo da sua vida e o endereço de sua residência. Do alto do Morro do Fogão, em Itirapina (SP), ela se estabeleceu em um ônibus adaptado como lar e lanchonete.
Vida no alto da serra
A 1.040 metros de altitude, Jaqueline se fixou como uma verdadeira guardiã do local, conciliando trabalho, natureza e tranquilidade. O ponto fica na Serra de Itaqueri, a 25 km do centro da cidade. “Morar aqui é um sossego. Minha família entende que é uma escolha de vida e de trabalho. Minha mãe ficava preocupada, mas é meu trabalho, meu comércio e meu estilo de vida. Hoje não troco por nada”, contou.
A casa-ônibus possui um quarto adaptado com sala e cozinha industrial, separada do dormitório. O banheiro fica do lado de fora.
Mudança gradual nas alturas
O Morro do Fogão é uma propriedade particular e ganhou mais visibilidade durante a pandemia por ser um espaço a céu aberto. No início, a moradia de Jaqueline era apenas uma barraca utilizada nos finais de semana para vigiar o espaço, quando o morro passou a atrair visitantes interessados em apreciar a paisagem panorâmica e o pôr do sol. “Eu vinha de barraca com meu ex-marido e ficávamos de sexta a domingo cuidando do lugar, vendíamos bebidas e comidas. Depois compramos o ônibus e nos mudamos de vez, é o meu lugar”, disse.
Bar-lar
A lanchonete-ônibus funciona de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas, e nos finais de semana das 7h às 19h. Café da manhã, porções, refrigerantes e cervejas estão garantidos no cardápio nas alturas. Não é cobrada entrada, apenas bom senso, como costuma frisar a comerciante. “Aqui é lindo mesmo, é um privilégio poder estar aqui. Como a gente não cobra entrada, pedimos apenas bom senso e respeito. As pessoas precisam ter noção de que aqui não é o quintal da casa delas”, frisou.
A comerciante comentou que em um final de semana chega a receber até 300 pessoas. Grupos de ciclistas, motoqueiros, casais e famílias são os visitantes mais frequentes. Para quem acampa, é permitido levar alimentos e bebidas. Já para visitantes é proibido coolers e alimentos. A única taxa cobrada é para quem utiliza o chuveiro para banho.
Camping e termo de responsabilidade
Para quem gosta de acampar, há espaço de sobra para escolher e se aconchegar com uma vista linda e restauradora. No entardecer, é possível ver várias cidades no horizonte, como Piracicaba, São Pedro, Águas de São Pedro, Brotas, São Carlos (SP), entre outras. Para acampar é preciso respeitar as regras do espaço e assinar um termo de responsabilidade sobre a propriedade. É proibido acender fogueira e ouvir som alto à noite. O local tem coleta de lixo, e a pessoa deve levar os resíduos até a lixeira.
Em uma ocasião recente, a comerciante contou que um grupo de pessoas acendeu uma fogueira que se transformou em um incêndio, felizmente controlado pela Polícia Militar Ambiental (PMA). Nesses casos, a PM é acionada e a multa é aplicada pela PMA.
Respeito à natureza
Mulher de fé, ela contou que vive protegida ao lado de seus três cães de guarda: o rottweiler Boris, o pastor Thor e a pinscher Nina. O amigo e empresário Arthur Bolognezi Junior também estacionou por lá e mora temporariamente em uma cabine de caminhão. Entre manhãs ensolaradas, neblinas e chuvas, o único receio dela é em relação a mudanças drásticas no tempo. No final do ano passado, uma tempestade de vento quase a fez desistir de morar no local. “Eu costumo dizer que não tenho medo de gente, tenho medo da natureza, dos ventos fortes, mas tenho Deus comigo o tempo todo. Quando deu a tempestade, ventou a 120 km aqui em cima. Eu coloquei mais de 20 pessoas dentro do ônibus, voaram cadeiras e a tenda”, contou.
No momento, o ônibus passa por reformas para um melhor atendimento ao público. Após a tempestade de vento, Jaqueline ficou um pouco traumatizada com o clima e decidiu construir um espaço de alvenaria para garantir mais segurança.
Além do público e clientes, Jaqueline sempre recebe amigos para noites de filmes, conversas e noites estreladas. “Aqui é uma paz, fiz um quarto e sala e quando recebo meus amigos, nos reunimos, assistimos TV, conversamos. Não precisamos de muito para ser feliz. Eu já me acostumei e não gosto mais do barulho da cidade”, finalizou.



