Mãe culpa prefeitura por morte de filha e netos em deslizamento no Recife
Mãe culpa prefeitura por morte em deslizamento no Recife

Janaína Soares da Silva, mãe e avó de três vítimas de um deslizamento de barreira no bairro de Dois Unidos, na Zona Norte do Recife, acusa o poder público de negligência. Em depoimento emocionado, ela afirmou que a Defesa Civil e a prefeitura falharam ao não orientar sua filha a sair de casa antes da tragédia, ocorrida na sexta-feira (1º).

Acusação de negligência

“Foi uma fatalidade, sim, mas foi muita negligência da prefeitura e da Defesa Civil, que vieram aqui na casa da minha filha e disseram que a barreira não tinha perigo. Que iriam voltar e botar uma lona na barreira. Eles disseram para ela não sair, que não tinha perigo. Se eles tivessem falado: ‘olha, Jaqueline, pegue sua família e saia daqui porque tem perigo para você’, a minha filha ia ficar não, ela ia sair. Só que eles não deram a orientação”, desabafou Janaína.

Janaína perdeu a filha Jaqueline Soares, de 25 anos, e os netos Riquelmy, de 7 anos, e Maria Helena, de 1 ano. As vítimas foram soterradas quando a barreira desabou sobre a casa onde moravam. O temporal que atingiu a Região Metropolitana do Recife e a Zona da Mata Norte deixou 27 municípios em situação de emergência.

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Histórico de alertas ignorados

De acordo com Janaína, a família comprou o terreno há seis anos e morava na casa há quatro. Em anos anteriores, ela já havia acolhido a filha e os netos em sua própria residência para protegê-los das fortes chuvas. Na sexta-feira, antes da barreira ceder, ela estava a caminho de Dois Unidos para buscá-los. “No mesmo dia da fatalidade, eu corri com meu esposo para buscá-la. Ela já estava na porta para sair, com o esposo dela. Só que quando ele [marido de Jaqueline] ia tirá-la, pois estavam prontos para sair na porta da sala, ele olhou para trás, a barreira veio. Ele correu para dentro de novo, para pegar a família dele, mas não deu tempo”, relatou.

Janaína expressou revolta com o poder público, que, segundo ela, não ofereceu um aluguel digno para a família. “Eu estou com muita dor na alma, mas estou muito revoltada”, disse.

Requisição ignorada desde 2023

Em 2023, a Câmara de Vereadores do Recife aprovou um requerimento pedindo à prefeitura a contenção da barreira que desabou. O documento destacava que “os moradores vêm sendo prejudicados com deslizamentos devido às várias rachaduras que estão aparecendo na barreira”. Mesmo após três anos, o serviço não foi realizado.

Moradores da região tentam retomar a rotina. Moacir, vizinho que acompanhou a mobilização desde sexta-feira, relembrou: “A gente estava na porta de casa, conversando sobre a barreira. Quando a gente acabou de falar, veio o alerta. Infelizmente, aconteceu, ela desceu. E a gente não pôde fazer mais nada, a não ser retirar o pessoal, tentar socorrer, mas não teve mais jeito”, contou emocionado.

Enterro e outras vítimas

O enterro de Jaqueline e seus dois filhos ocorreu no domingo (3), no Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife. O marido de Jaqueline, José Rodrigues, sobreviveu com ferimentos nas costas e na perna, pois ficou soterrado até a metade do corpo.

Além das três mortes em Dois Unidos, o temporal causou outras três mortes: duas em Olinda (a jovem Bruna Karina, de 20 anos, e seu filho Pietro da Silva, de 6 meses, soterrados em deslizamento no bairro do Passarinho) e uma em São Lourenço da Mata (um homem que se afogou na correnteza do rio). Ao todo, seis pessoas perderam a vida nos temporais que atingiram o Grande Recife e a Zona da Mata.

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