Sobrevoo expõe falhas críticas em sistema antienchentes que ameaça 170 famílias em Ribeirão Preto
Um sobrevoo realizado pela EPTV, afiliada da TV Globo, revelou problemas estruturais graves no sistema de contenção de enchentes da zona sul de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. As imagens aéreas mostram que a Barragem Santa Tereza está operando no limite de sua capacidade, colocando em risco iminente 170 famílias que residem na Comunidade Vida Nova, localizada a poucos metros do curso d'água do Córrego Ribeirão Preto.
Comunidade em situação de vulnerabilidade permanente
Os moradores da comunidade relataram que, nos últimos dias, a água tem se aproximado rapidamente de suas residências, aumentando o temor de um possível rompimento da estrutura. Fernanda Aparecida, líder comunitária que vive há 32 anos no local, expressou a angústia dos residentes: "Eles não têm para onde ir, não tem como eles saírem daqui e procurar outro lugar, então eles continuam na área de risco". A situação se agrava durante períodos chuvosos, quando o nível do córrego sobe significativamente.
Sistema de contenção opera com deficiências estruturais
O sistema antienchentes, que inclui a Barragem Santa Tereza projetada para reter até 210 milhões de litros de água, tem se mostrado ineficiente no controle das inundações que afetam regularmente a Avenida Adelmo Perdizza. As imagens aéreas evidenciam um acúmulo excessivo de lixo, troncos e entulho dentro do reservatório, material que fica preso e reduz drasticamente a capacidade de escoamento e vazão da barragem.
De acordo com o engenheiro civil José Roberto Romero, a estrutura possui dois sistemas de vazão, mas um deles está completamente comprometido: "Está assoreada, cheia de lixo e material, e isso acaba diminuindo a área de captação. A água sobe, não tem como escoar porque está represada, então ela extravasa". O especialista alerta que, embora não haja danos visíveis aparentes, é necessária uma avaliação técnica detalhada para verificar possíveis fissuras internas na estrutura.
Responsabilidades divididas e falta de solução definitiva
Em nota oficial, a Prefeitura de Ribeirão Preto informou que realiza limpezas periódicas na barragem, sendo a última em janeiro deste ano. A administração municipal reconheceu que os alagamentos na Adelmo Perdizza constituem um problema histórico e que um plano de macrodrenagem prevê a construção de mais três estruturas de contenção, mas que essa implementação depende de recursos do governo federal.
Paralelamente, a prefeitura argumentou que os alagamentos poderiam ser minimizados com ações pontuais e de menor complexidade no próprio local, de responsabilidade da concessionária Entrevias. Esta, por sua vez, rebateu as acusações, afirmando que mantém seu sistema de drenagem no entorno da avenida limpo e desobstruído, atribuindo a causa dos alagamentos à macrodrenagem municipal.
Falhas no projeto original e expansão imobiliária agravam situação
O engenheiro Romero destacou ainda a ausência de diques de contenção que estavam previstos no projeto original da Barragem Santa Teresa, mas que nunca foram construídos: "O objetivo do dique seria fazer a contenção das águas antes da barragem. Com esses diques, a água não iria para a avenida. Seria um regulador de vazão".
Outro fator agravante apontado pelo especialista é a expansão imobiliária na região sul da cidade, que reduziu significativamente as áreas de infiltração da água. Romero explicou: "Impermeabilizou muito mais o solo, teve mais construções, mais pavimentação, e não tem captação de água no local. Se você fez um condomínio, tem jeito de fazer um poço de captação, porque isso até ajuda na recarga do Aquífero Guarani, usar uma pavimentação permeável".
Sistema completo de barragens e necessidade de intervenção urgente
O Córrego Ribeirão Preto nasce na região central de Cravinhos, já apresentando indícios de poluição em seus primeiros metros. O curso d'água percorre Bonfim Paulista até encontrar a primeira barragem de contenção, com capacidade para 500 milhões de litros. Mais abaixo, a água chega à Barragem Santa Teresa, na Adelmo Perdizza.
Nos últimos anos, a Prefeitura implementou três estruturas para controlar a vazão na região:
- Bonfim Paulista: A maior delas, com capacidade para 500 milhões de litros de água;
- Mata de Santa Teresa: Localizada na região da Adelmo Perdizza, com capacidade para 210 milhões de litros;
- Vila Virgínia: Uma terceira barragem próxima a condomínios do bairro.
Apesar dessa infraestrutura, o sistema tem se mostrado insuficiente. Para Romero, a solução definitiva exige a limpeza periódica do local e a construção de uma nova estrutura: "Tem que ser feita uma barragem intermediária entre Bonfim e a Santa Teresa, ou um piscinão, por conta da impermeabilização que foi feita no solo". O especialista concluiu enfatizando a necessidade de evolução nas técnicas de engenharia aplicadas ao manejo hídrico urbano.
