Documentário resgata memória de uma das maiores tragédias fluviais da Amazônia
Seis anos após o trágico naufrágio do navio Anna Karoline 3, que resultou em 40 mortos, 51 sobreviventes e 2 desaparecidos nas águas entre o Amapá e o Pará, uma produção audiovisual busca preservar a memória deste desastre que marcou profundamente a região amazônica. O telefilme documental "Anna Karoline III: A história que o rio nunca esqueceu" será exibido nesta sexta-feira (17) em uma sessão exclusiva, reunindo pela primeira vez relatos emocionantes dos envolvidos diretos na tragédia.
Reconstrução detalhada através da memória coletiva
Com aproximadamente 50 minutos de duração, a produção cinematográfica mergulha nos detalhes do fatídico dia 29 de fevereiro de 2020, quando a embarcação partiu de Santana, próximo a Macapá, com destino a Santarém, no Pará. Através de entrevistas inéditas com sobreviventes, familiares das vítimas e profissionais que atuaram no resgate - incluindo equipes da Polícia Técnico-Científica, Corpo de Bombeiros, forças de segurança e jornalistas que cobriram o caso - o documentário reconstrói minuciosamente os momentos que antecederam e sucederam o naufrágio.
Thomé Azevedo, um dos diretores e responsável pelas entrevistas, explica que o filme busca se aproximar do conceito de "cinema verdade", apresentando uma narrativa crua e autêntica sobre o sofrimento e as perdas humanas. "Podemos dizer que este filme retrata sofrimento, perdas e momentos de grande dor. Mas é uma peça importante para a memória dessas tragédias que acontecem na Amazônia", afirma o produtor, destacando o valor histórico e social da obra.
Investigação revela múltiplas falhas que levaram ao desastre
O documentário não se limita a revisitar o passado, mas também provoca reflexão sobre as causas do acidente. A investigação da Polícia Civil do Amapá revelou que o navio operava com 70% de sobrecarga no momento do naufrágio - enquanto sua capacidade máxima era de 100 toneladas, transportava aproximadamente 175 toneladas. Além disso, uma série de irregularidades contribuíram para a tragédia:
- A rota utilizada pela embarcação não estava autorizada pela Capitania dos Portos
- O despachante do porto emitiu documento com informações falsas sobre a carga
- Militares da Marinha dedicaram menos de 5 minutos à fiscalização do navio
- A embarcação realizou abastecimento irregular durante a viagem
- As condições climáticas eram desfavoráveis para as manobras realizadas
- O tripulante indiciado conduzia o barco no momento crítico, não o comandante
Exibição especial e disponibilização pública
O telefilme terá uma exibição especial em formato avant-première no Cine Movieland, reservada para familiares das vítimas, autoridades e participantes da produção. Posteriormente, será disponibilizado gratuitamente ao público através do canal oficial da Duas Telas Produtora Cultural no YouTube. A produção foi viabilizada por duas produtoras privadas através do edital nº 003/2023 da Secretaria de Estado da Cultura do Amapá (Secult-AP), utilizando recursos da Lei Paulo Gustavo destinados à produção de telefilmes no estado.
Marcelo Nobre, outro diretor envolvido no projeto, ressalta que a obra busca conscientização sobre segurança fluvial: "Mais do que revisitar o passado, a obra também busca provocar reflexão e conscientização. O filme aponta para a importância de medidas preventivas em viagens fluviais, como a verificação das condições das embarcações e cuidados básicos de segurança, contribuindo para evitar novos acidentes".
Legado de uma tragédia ainda não resolvida
Passados seis anos do naufrágio que completou cinco anos sem julgamento dos responsáveis, o documentário surge como um importante registro histórico e um chamado à justiça. A tragédia do Anna Karoline 3 permanece como uma ferida aberta na memória coletiva da região, e esta produção audiovisual busca garantir que as lições deste desastre não sejam esquecidas pelas águas do rio Amazonas.



