Crise Global: Abandono de Petroleiros e Marinheiros Atinge Níveis Alarmantes
Abandono de petroleiros e marinheiros atinge níveis alarmantes

Crise Global: Abandono de Petroleiros e Marinheiros Atinge Níveis Alarmantes

O cenário marítimo internacional enfrenta uma crise sem precedentes com o aumento vertiginoso no abandono de petroleiros e outras embarcações comerciais por seus proprietários. Este fenômeno, que se intensificou drasticamente ao longo do último ano, deixa milhares de marinheiros mercantes em situação de extrema vulnerabilidade, sem salários, provisões básicas e perspectivas de repatriação.

O Drama Humano nos Mares

Ivan (nome fictício), um funcionário sênior de convés russo, relatou à BBC sua experiência a bordo de um petroleiro abandonado fora das águas territoriais da China. "Houve falta de carne, grãos, peixe — coisas simples para a sobrevivência", desabafou. "Isso afetou nossa saúde e o clima operacional a bordo. A tripulação estava com fome, a tripulação estava com raiva, e tentávamos sobreviver apenas dia após dia."

O navio, que transporta cerca de 750 mil barris de petróleo bruto russo no valor aproximado de US$ 50 milhões, foi declarado abandonado em dezembro pela International Transport Workers' Federation (ITF) após a tripulação relatar meses sem receber salários. A embarcação permanece em águas internacionais, com a China aparentemente relutante em permitir sua entrada em porto.

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A ITF interveio para garantir o pagamento dos salários até dezembro e organizar o envio de alimentos, água potável e itens essenciais. Embora alguns tripulantes tenham sido repatriados, a maioria, incluindo Ivan, continua a bordo, presa em uma situação de incerteza.

Números que Assustam

Os dados da ITF revelam uma escalada alarmante:

  • 2016: 20 navios abandonados
  • 2025: 410 navios abandonados, afetando 6.223 marinheiros
  • Aumento: Quase um terço em relação a 2024

No ano passado, as tripulações abandonadas acumulavam juntas US$ 25,8 milhões em salários atrasados, segundo a Organização Marítima Internacional (IMO) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A ITF recuperou aproximadamente US$ 16,5 milhões desse valor.

Fatores por Trás da Crise

Vários elementos convergem para explicar este cenário preocupante:

  1. Instabilidade Geopolítica: Conflitos globais e a pandemia de covid-19 causaram interrupções nas cadeias de suprimento e grandes variações nos custos de frete.
  2. Frotas Fantasmas: Embarcações antigas, de propriedade obscura, muitas vezes sem condições adequadas de navegação, seguro ou operações seguras. Estas frotas operam sob bandeiras de conveniência (FOCs) para ajudar países como Rússia, Irã e Venezuela a exportar petróleo em violação às sanções ocidentais.
  3. Bandeiras de Conveniência: Panamá, Libéria e Ilhas Marshall respondem por 46,5% de todos os navios mercantes em tonelagem. A Gâmbia emergiu como novo ator, passando de zero petroleiros registrados em 2023 para 35 em março do ano passado.

Em 2025, navios com bandeira de conveniência representaram 337 embarcações abandonadas — 82% do total. A nacionalidade mais afetada foi a indiana, com 1.125 marinheiros (18% do total), seguida por filipinos (539) e sírios (309).

Responsabilidades e Desafios

Mark Dickinson, secretário-geral do Nautilus International, responsabiliza os Estados que oferecem bandeiras de conveniência por uma "completa abdicação de responsabilidade" em relação às suas frotas e tripulações. Ele defende a necessidade de um vínculo genuíno entre proprietários e bandeiras, algo já exigido pelo direito marítimo internacional, mas sem definição prática universal.

O navio de Ivan navegava sob uma bandeira gambiana falsa, não registrada e desconhecida pelas autoridades da Gâmbia. Atualmente, está sob bandeira provisória de outro país africano, que abriu investigação formal sobre a embarcação.

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O Futuro Incerto

Nathan Smith, inspetor da ITF, acredita que o destino do petroleiro só será resolvido quando o petróleo for transferido para outro navio em operação de alto-mar. Ivan, por sua vez, afirma que será muito mais criterioso no futuro: "Com certeza vou ter uma conversa adequada sobre as condições da embarcação, sobre pagamento e provisões. E vou recorrer à internet, onde podemos ver quais navios são proibidos, quais estão sob sanções."

Marinheiros como Ivan frequentemente ficam à mercê dos contratos disponíveis. Com as viagens das frotas fantasmas sendo peça-chave na cadeia de suprimento do petróleo russo, torna-se imperativa uma maior cooperação internacional para proteger os trabalhadores marítimos dos riscos inerentes ao serviço no mar.