Tragédia familiar em Botucatu: idosa morre após ataque massivo de abelhas dentro de casa
A cidade de Botucatu, no interior de São Paulo, foi palco de uma tragédia doméstica que resultou na morte de uma idosa de 76 anos após um ataque massivo de abelhas dentro da própria residência. O incidente ocorreu na segunda-feira (23), no bairro Green Valley, e deixou também o marido da vítima, de 70 anos, e o filho do casal, de 38, feridos.
Detalhes do ataque fatal
Márcia Maria Bertani Favarin foi surpreendida por um enxame de abelhas dentro de sua casa. Segundo relatos policiais, um vizinho ouviu gritos vindos do imóvel e tentou prestar socorro. Quando as equipes de emergência chegaram ao local, a idosa já havia falecido em decorrência das múltiplas picadas.
O marido e o filho da vítima foram rapidamente socorridos e encaminhados ao Hospital das Clínicas de Botucatu, onde receberam atendimento médico especializado. Ambos tiveram alta na manhã de terça-feira (24), mas o trauma psicológico permanece para a família.
Abelhas africanizadas: comportamento defensivo, não assassino
As abelhas envolvidas no ataque foram identificadas como da espécie Apis mellifera, popularmente conhecidas como abelhas africanizadas. Em entrevista ao g1, o professor Rui Seabra, coordenador do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Unesp de Botucatu, esclareceu que esses insetos não atacam humanos de forma instintiva.
"As abelhas africanizadas, muitas vezes chamadas erroneamente de 'abelhas assassinas', são na verdade defensivas", explicou o especialista. "Elas protegem sua colmeia, sua rainha e seu alimento. Por isso, em ataques em grande número, acabam sendo confundidas com 'abelhas assassinas'".
O que diferencia essas abelhas de outras espécies é seu comportamento de perseguição. Enquanto a maioria das abelhas pica uma ou poucas vezes e se afasta, as africanizadas podem perseguir uma ameaça por longas distâncias, atacando em grandes números simultaneamente.
Risco aumentado em áreas urbanas
O professor Seabra alertou para os perigos crescentes em áreas urbanas, onde colmeias podem se instalar em locais inesperados:
- Telhados de residências
- Árvores em quintais
- Estruturas abandonadas
- Até mesmo no solo
O veneno das abelhas africanizadas (apitoxina) tem toxicidade semelhante ao de outras abelhas melíferas, mas a quantidade inoculada por centenas ou milhares de picadas simultâneas pode levar a uma síndrome de envenenamento grave e até à morte, mesmo em pessoas não alérgicas.
Orientações de segurança para a população
Diante do risco, o especialista ofereceu orientações cruciais para evitar acidentes:
- Afastar-se imediatamente ao identificar uma colmeia
- Não provocar as abelhas sob nenhuma circunstância
- Acionar profissionais especializados para remoção segura
- Se o enxame estiver apenas passando, deitar no chão e aguardar sua partida
Os órgãos recomendados para contato em casos de colmeias urbanas incluem a Vigilância Sanitária, o Corpo de Bombeiros ou apicultores credenciados. A tentativa de remoção caseira representa risco extremo.
Pesquisa avançada para tratamento específico
Em desenvolvimento há mais de 20 anos, o Cevap trabalha em parceria com o Instituto Butantan e o Instituto Vital Brazil no desenvolvimento de um soro específico contra picadas de abelhas. O tratamento, que ainda não está disponível no Brasil, já passou pelos ensaios clínicos de fase 2.
Com apoio do Ministério da Saúde, o projeto avançou para a fase 3, última etapa antes da possível disponibilização no Sistema Único de Saúde (SUS). "Aprovamos o estudo clínico de fase 3 no final de 2025 e estamos nas etapas preparatórias", revelou o professor Seabra.
Entre 15 e 20 municípios brasileiros devem receber o soro durante os testes, sendo Botucatu uma das cidades prováveis. Pacientes atendidos nessas localidades poderão receber o tratamento experimental durante a fase de testes clínicos.
Investigação e medidas pós-incidente
A Vigilância Ambiental em Saúde foi acionada após o ataque fatal e constatou grande quantidade de insetos no local do incidente. O caso foi registrado no 1º Distrito Policial de Botucatu como morte acidental, mas serve como alerta para toda a comunidade sobre os riscos da convivência com colmeias em áreas residenciais.
A tragédia em Botucatu ressalta a importância da educação pública sobre como lidar com enxames urbanos e a necessidade de protocolos de segurança bem estabelecidos para proteger a população de acidentes semelhantes no futuro.



