Cabo da PM não solicita perícia em acidente fatal envolvendo filha de capitão
Um grave acidente de trânsito ocorrido na avenida Ville Roy, zona Leste de Boa Vista, resultou na morte da técnica em enfermagem Patricia Melo da Silva, de 53 anos, e levantou sérias questões sobre a atuação policial no local. O cabo da Polícia Militar Fernando Cordeiro Ledo, de 39 anos, que comandava a ocorrência, admitiu em depoimento que considerou "não ser necessário" acionar a perícia técnica após a colisão fatal.
Detalhes do acidente e condutora envolvida
O sinistro aconteceu por volta das 23h44 do dia 4 de fevereiro, quando a motocicleta pilotada por Patricia foi atingida por uma caminhonete S10 conduzida pela estudante Amanda Kathryn Monteiro de Souza, de 19 anos. Amanda é filha do capitão da PM Helton John Silva de Souza, militar envolvido anteriormente em caso de assassinato por disputa de terras no município do Cantá.
Segundo o laudo do Instituto Médico Legal, Patricia sofreu múltiplas lesões graves e faleceu às 01h37, após ser atendida no local pelo Samu e encaminhada ao Hospital Geral de Roraima. A motocicleta da vítima estava com licenciamento vencido desde 2018, enquanto a caminhonete apresentava documentação regular.
Conduta policial questionada na investigação
O cabo Fernando afirmou em seu depoimento que não solicitou o teste do bafômetro para Amanda porque não havia suspeita de alcoolemia e o caso "parecia ser de lesão corporal". Ele também declarou não ter recebido qualquer contato solicitando tratamento diferenciado por ser a condutora filha de militar.
Entretanto, a investigação da Polícia Civil, que teve acesso a vídeos e fotografias da cena, revela contradições. "Pelos vídeos e fotos colhidas na cena do acidente, dá para perceber que a motocicleta ficou presa no para-choque da S10 envolvida", consta no inquérito, indicando que os veículos não teriam sido movimentados como alegado pelo policial.
Testemunhas relatam comportamento suspeito
Duas testemunhas prestaram depoimentos que contrastam com a versão oficial:
- Uma mulher de 35 anos afirmou ter ouvido Amanda dizer que era "filha de capitão da polícia", momento em que um policial "olhou para a cara do outro e pouco depois, um deles virou de costas e passou a mexer no telefone celular".
- A mesma testemunha relatou ter presenciado Amanda em videochamada com sua tia, admitindo que "havia bebido, mas que cedo".
- Um motoboy de 37 anos confirmou ter ouvido declaração similar: "Tia, eu bebi, mas foi pouco e foi cedo".
A defesa de Amanda, por sua vez, emitiu nota afirmando que a estudante permaneceu todo o tempo no local prestando socorro e que "ela mesma se prontificou em fazer o exame" do bafômetro, além de que vídeos em redes sociais mostravam ausência de sinais de embriaguez.
Andamento das investigações e responsabilizações
A Polícia Civil informou que o inquérito policial instaurado pela Delegacia de Acidentes de Trânsito encontra-se em fase final de conclusão. A corporação destacou que "a ausência de realização de perícia no local do acidente também está sendo analisada no âmbito da investigação".
Quanto às possíveis responsabilizações, a polícia acrescentou que "eventual responsabilização de agente público será avaliada pelas instâncias competentes, conforme a legislação vigente, cabendo ao Ministério Público de Roraima a adoção das medidas que entender pertinentes".
O cabo Fernando, ao ser procurado pela reportagem, orientou que contatassem a assessoria da PM, que até o fechamento desta matéria não havia se manifestado. Em seu depoimento, o policial reconheceu que hoje entende que deveria ter acionado a perícia, mesmo tendo tirado fotografias do cenário para "ajudar na compreensão da dinâmica dos fatos".
Amanda Kathryn manteve silêncio ao prestar depoimento à Polícia Civil, enquanto seu pai, o capitão Helton John Silva de Souza, não foi mencionado como presente durante a ocorrência. O caso continua sob apuração, com expectativa de conclusão em breve.



