Piracicaba, no interior de São Paulo, encerrou o mês de dezembro de 2025 com um triste recorde: a cidade possui o maior número de mortes no trânsito por habitante em todo o estado. Os dados são do Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito (Infosiga SP). A posição de liderança no ranking de letalidade persiste mesmo com a realização de operações de fiscalização e campanhas educativas pela prefeitura.
Um cenário persistente e números alarmantes
A cidade já ocupava o primeiro lugar no ranking do Infosiga desde setembro de 2024. Embora tenha caído para a segunda posição em algum momento durante o ano e registrado redução no número de ocorrências, Piracicaba retornou ao topo da lista. O índice aponta 17 mortes para cada 100 mil habitantes no período acumulado de doze meses.
Considerando apenas os onze primeiros meses de 2025, de janeiro a novembro, o município somou 71 óbitos em vias municipais e estaduais. Esse número representa a segunda maior letalidade desde 2015, podendo ainda ser alterado com a inclusão dos dados de dezembro. O ano com o pior desempenho em toda a série histórica do Infosiga foi 2024, com 76 mortes registradas.
Especialistas analisam as causas e apontam soluções
Para o advogado especialista em direito de trânsito, André Gomes Bertucci, fatores como a falta de atenção – agravada pelo uso de celulares ao volante –, o aumento da frota de veículos e o crescimento no número de motocicletas em circulação contribuem para o cenário crítico.
Bertucci elencou uma série de medidas que considera essenciais para o poder público reverter a situação:
- Redução dos limites de velocidade das vias;
- Melhoria na sinalização viária;
- Intensificação das operações de fiscalização de álcool;
- Ampliação da fiscalização por câmeras;
- Diversificação da fiscalização para coibir outras infrações, como uso de cinto, capacete e transporte de crianças.
O perito judicial e especialista em trânsito da região, Agnaldo Pedroso, complementa que, apesar das melhorias nas vias e campanhas realizadas, a imprudência dos condutores é um ponto central. "Os condutores não estão tendo uma conduta adequada... prefere buzinar do que pisar no freio", relatou, baseado em suas experiências em perícias. Ele defende a fiscalização por videomonitoramento como forma de inibir essas condutas.
O que as autoridades estão fazendo?
Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança Pública, Trânsito e Transportes de Piracicaba atribuiu parte do problema ao aumento da frota, que passou de 357 mil para 366 mil veículos entre 2024 e 2025. A pasta afirmou que tem intensificado ações de fiscalização e prevenção em conjunto com a Guarda Civil Municipal, Polícia Militar e Detran, destacando a Operação Hércules.
A cidade também conta com um Comitê de Trauma, oficializado em abril, e lançou a campanha "Luz, Câmera e Proteção!" em setembro, focada na conscientização sobre o sistema de câmeras.
O Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo (DER-SP) informou que mantém um trabalho permanente de melhorias na infraestrutura das estradas estaduais. Na região de Piracicaba, estão em fase de contratação obras de conservação e sinalização na SP-304, com investimento de R$ 51 milhões, e projetos de recuperação e duplicação na SP-147, com mais de R$ 319,5 milhões.
Além disso, o órgão vem ampliando a implantação de radares de velocidade desde agosto de 2025. Atualmente, vários equipamentos já estão em funcionamento nas rodovias SP-304, SP-135 e SP-147 que cortam o município, com mais previstos para serem instalados.
O trágico exemplo do risco contínuo ocorreu no dia 31 de agosto deste ano, quando um acidente envolvendo dois carros e uma moto na SP-304, em Piracicaba, resultou em 5 mortos e 2 feridos. A cena, que chocou a região, ilustra a urgência das medidas discutidas por especialistas e autoridades.