Emendas parlamentares: R$ 61 bi em 2026 sob pressão do STF e PF
Emendas de R$ 61 bi em 2026 sob pressão judicial

As emendas parlamentares, principal instrumento de barganha política no Congresso Nacional, caminham para 2026 envoltas em uma nuvem de controvérsias. Apesar de terem seu valor recorde ampliado para mais de R$ 61 bilhões no Orçamento do próximo ano, elas enfrentam um cenário inédito de pressão judicial, operações policiais e um questionamento direto sobre sua constitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF).

Orçamento em alta e escrutínio em crescimento

O Congresso Nacional aprovou no dia 19 de dezembro o Orçamento da União para 2026, que prevê um montante histórico para as indicações de deputados e senadores: mais de R$ 61 bilhões. Esse valor representa um aumento significativo em relação aos R$ 50 bilhões reservados para 2025, que já consumiam até 70% da verba discricionária de alguns ministérios, destinada a investimentos e contratos.

O avanço do poder do Legislativo sobre o tesouro nacional se intensificou a partir de 2020, quando os recursos saltaram de R$ 13,7 bilhões para R$ 46,2 bilhões. Esse crescimento foi impulsionado pela chamada "emenda do relator", posteriormente declarada inconstitucional pelo STF em 2022. A regra que tornou obrigatório o pagamento das emendas individuais foi criada em 2015, e desde então o Congresso expandiu o leque para incluir emendas de bancadas estaduais, de comissão e de relator.

STF, PF e a sombra do "orçamento secreto"

O ambiente de aparente normalidade para a distribuição dos recursos sofreu abalos. O ministro do STF Flávio Dino anunciou no início de dezembro que concluiu a instrução das Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) que questionam a própria existência das emendas impositivas. Ele pedirá ao presidente da corte, Edson Fachin, que inclua o tema na pauta de julgamento do plenário.

Dino definiu o debate como "fundamental em um país presidencialista", pois diz respeito à separação de Poderes. "É um debate essencial e de índole constitucional. É um debate jurídico, não é um debate político", afirmou. Paralelamente, o ministro tem autorizado operações da Polícia Federal, como a realizada em 12 de dezembro, que teve como alvo Mariângela Fialek, a Tuca, assessora ligada ao ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL).

As críticas não são novidade. Durante a campanha presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se referiu ao modelo como "o maior esquema de corrupção da atualidade", "orçamento secreto" e "bolsolão". Em dezembro, o presidente voltou a criticar o volume de recursos definido pelo Congresso: "Eu acho que o fato de o Congresso Nacional sequestrar 50% do Orçamento da União é um grave erro histórico". Apesar disso, seu governo manteve nomes do centrão em pastas estratégicas para a execução das emendas, como a Codevasf e o Ministério dos Esportes.

Falta de transparência e emendas "informais"

Mesmo com travas impostas pelo Supremo, persistem graves problemas de transparência. Em cerca de R$ 11,5 bilhões em emendas de comissão temáticas previstas para 2025, as listas com os autores estão espalhadas em sites sem padrão definido, tornando difícil identificar o "padrinho" político da verba.

Um cenário ainda mais cinzento surge com as chamadas emendas informais. No Ministério da Saúde, por exemplo, uma fatia de mais de R$ 7,65 bilhões é tratada nos bastidores como indicações paralelas. O governo nega a existência dessas emendas secretas, mas documentos, publicações em redes sociais e falas dos próprios parlamentares confirmam o controle congressual sobre parte desses recursos.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu as emendas no último dia de votações de 2025. Ele afirmou que o Judiciário cumpre seu papel ao ordenar investigações, mas criticou o que considera exageros. "Nós não temos compromisso com quem não trabalha correto com emenda. Mas eu tenho também a plena certeza de que a larga maioria dos representantes... trabalha corretamente", declarou, pedindo para que não se generalizem os ataques.

O destino final da verba é concentrado. O Ministério da Saúde é o principal destino, com mais de R$ 27 bilhões reservados ao Congresso em 2025. Pastas como a dos Esportes veem as emendas consumirem até 70% de seus recursos para custeio e investimento. Enquanto o valor empenhado pelo governo deve chegar a cerca de R$ 50 bilhões em 2025 – quase dez vezes mais que em 2015 –, a tensão entre o poder de indicação do Congresso, o controle do Executivo e a fiscalização do Judiciário promete definir os rumos do Orçamento brasileiro nos próximos anos.