NASA monitora tempestades solares para proteger astronautas da Artemis II em missão lunar
O Sol emite constantemente partículas de alta energia conhecidas como vento solar, cuja intensidade varia conforme a atividade da nossa estrela. Quando os astronautas deixam a proteção do campo magnético terrestre, entram em um ambiente onde erupções solares podem liberar energia superior a um bilhão de bombas de hidrogênio. Esta é a realidade enfrentada pelos quatro tripulantes da missão Artemis II durante seus dez dias de jornada ao redor da Lua, marcando a primeira aventura humana tão distante da Terra em mais de meio século.
Monitoramento contínuo do Sol
Para garantir a segurança da tripulação, a NASA e a Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) realizam vigilância solar ininterrupta, utilizando uma rede de satélites distribuídos pelo sistema solar. "Nosso foco é a análise de meteorologia espacial em tempo real, com prioridade para partículas energéticas solares e eventos capazes de produzi-las", explicou Mary Aronne, responsável pelo escritório de análise de meteorologia espacial do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA.
Durante a missão, os astronautas estão expostos a três fontes distintas de radiação:
- Raios cósmicos galácticos: partículas de altíssima energia originárias de fora do sistema solar, presentes em todo o espaço
- Cinturões de Van Allen: duas faixas de partículas carregadas que cercam a Terra, que qualquer missão lunar precisa atravessar
- Partículas energéticas solares: aceleradas por erupções solares a velocidades próximas à da luz, representando a fonte mais imprevisível
Riscos da atividade solar intensa
As duas primeiras fontes combinadas geram uma exposição equivalente a um mês na Estação Espacial Internacional, aproximadamente 5% do limite de carreira de um astronauta. Qualquer tempestade solar adiciona radiação a esse valor base, e a preocupação é particularmente relevante pois o Sol permanece em fase ativa durante a missão.
Horas antes do lançamento em 1º de abril, o Sol produziu uma ejeção de massa coronal - uma gigantesca nuvem de plasma capaz de acelerar partículas carregadas a velocidades que podem atravessar metal e tecido vivo, causando danos ao DNA.
Sistema avançado de monitoramento
Para rastrear essas erupções, a NASA utiliza dados em tempo real de sondas posicionadas estrategicamente pelo sistema solar. Um recurso inédito é o rover Perseverance em Marte, que - graças à posição atual do planeta - tem visão direta do lado do Sol oposto ao observado da Terra. As câmeras do rover identificam manchas solares com até duas semanas de antecedência, proporcionando tempo para preparação das equipes.
Dentro da nave Orion, seis sensores de radiação medem os níveis em diferentes partes da cabine, enquanto cada astronauta carrega um dosímetro pessoal. Se os níveis atingirem um primeiro patamar de alerta, as equipes de solo intensificam o monitoramento. Ao alcançar um segundo patamar, a recomendação é que a tripulação construa um abrigo improvisado.
Procedimentos de proteção na nave
O protocolo de proteção envolve reorganizar a cabine: retirar equipamentos dos compartimentos de armazenamento e distribuí-los pelas paredes menos protegidas da nave, criando camadas extras de massa entre os astronautas e as partículas externas. "Uma vez que a tripulação adiciona massa nos pontos de maior exposição, ela pode continuar realizando suas atividades normalmente", afirmou Stuart George, analista de radiação espacial do Centro Espacial Johnson da NASA.
Mesmo com condições solares calmas, está previsto um ensaio desse procedimento no oitavo dia de voo. A Artemis II representa a primeira missão tripulada a testar este protocolo dentro da Orion, demonstrando avanços significativos em relação à era Apollo.
Comparação com a era Apollo
Em agosto de 1972, entre as missões Apollo 16 e Apollo 17, uma intensa tempestade solar atingiu o espaço profundo. Se astronautas estivessem presentes naquele momento, as consequências poderiam ter sido graves. "Viemos longe desde a era Apollo em termos de capacidade de proteger os astronautas", destacou a astrofísica Azita Valinia, ex-cientista-chefe do Centro de Engenharia e Segurança da NASA. "O blindamento das naves é muito mais avançado."
Próximos passos da missão
Nas próximas horas e dias, os astronautas devem:
- Deixar a esfera de influência gravitacional da Lua em 7 de abril
- Realizar testes de pilotagem manual e simulação de abrigo contra radiação solar em 8 de abril
- Conduzir último dia completo no espaço em 9 de abril, revisando procedimentos de reentrada
- Realizar amerissagem no Oceano Pacífico em 10 de abril após reentrada com escudo térmico atingindo até 1.650°C
Durante este período, cientistas em solo terão oportunidade de conversar com a tripulação sobre observações realizadas durante o sobrevoo lunar, enquanto os astronautas conduzem experimentos a bordo antes do retorno à Terra.



