Especialista afirma que energia será fator decisivo na nova corrida espacial
Energia será decisiva na nova corrida espacial, diz especialista

Especialista afirma que energia será fator decisivo na nova corrida espacial

O sobrevoo tripulado da Lua pela missão Artemis II, realizado na segunda-feira, 6 de abril de 2026, marca o primeiro voo humano ao redor do satélite em mais de cinco décadas e reposiciona a exploração espacial no centro da agenda global. Lançada no início do mês, a missão funciona como um teste para futuras viagens mais longas e inaugura uma nova fase, voltada não apenas a chegar à Lua, mas a sustentar uma presença contínua no espaço.

Embora oficialmente focada na validação de sistemas, a Artemis II integra uma estratégia mais ampla de construção de infraestrutura fora da Terra, um movimento que reacende a disputa por recursos estratégicos e amplia o papel da energia como eixo central dessa nova corrida. Em entrevista exclusiva, Alex Burg, fundador e sócio-gerente do The Mars Fund, especialista em portfólio de tecnologia espacial e autor da documentação da Nasa sobre a arquitetura de exploração da Lua e de Marte, analisa os desdobramentos desse avanço.

Energia como gargalo estratégico

Alex Burg destaca que, diferentemente da era Apollo, onde o objetivo era chegar à Lua de forma pontual, o programa Artemis busca estabelecer uma presença contínua. Isso transforma a energia de um sistema de suporte em um fator central. "A Lua e Marte são ambientes completamente inexplorados, com recursos abundantes, mas sem infraestrutura. E energia é o que viabiliza tudo, desde a sobrevivência humana até a exploração de recursos", afirma Burg. "Por isso, ela deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser o principal gargalo estratégico. A nova corrida espacial será decidida pela energia."

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Foco no polo sul lunar e desafios marcianos

A escolha do polo sul da Lua não é aleatória. Diferentemente da região equatorial, ali há presença de água em forma de gelo, essencial para missões de longa duração. Além disso, do ponto de vista energético, há uma vantagem importante: é possível capturar mais luz solar ao posicionar painéis em regiões elevadas e com incidência mais constante de luz. Isso permite gerar energia de forma mais eficiente.

Burg menciona planos concretos de levar reatores nucleares para a superfície lunar, algo em torno de 100 kW até o fim da década. "O modelo energético que está sendo desenhado combina energia solar e nuclear, justamente para garantir redundância e escala", explica. Quando essa lógica é levada para Marte, os desafios aumentam. "Marte é um desafio completamente diferente. Primeiro, pela distância; é muito mais caro e difícil enviar qualquer infraestrutura até lá. Segundo, pelas condições naturais: Marte recebe menos luz solar do que a Terra e a Lua, o que reduz a eficiência dos painéis solares", detalha. "No fim, o grande ponto é que Marte transforma a exploração em um problema energético ainda mais complexo."

Riscos técnicos e papel do setor privado

O maior risco para sustentar uma base fora da Terra é o desconhecido. "Em laboratório, conseguimos modelar muitos desses sistemas, mas ainda não fizemos isso na prática nesses ambientes. Então, existe um grau inevitável de incerteza", alerta Burg. "Os sistemas precisam ser desenhados com flexibilidade e capacidade de adaptação. Não é só uma questão de eficiência, mas de resiliência."

A entrada do setor privado mudou profundamente o cenário. "No passado, a exploração espacial era quase totalmente conduzida por governos. Hoje, a Nasa atua muito mais como uma organizadora do ecossistema, criando as condições para que empresas privadas desenvolvam tecnologia", observa. Isso permite escalar soluções mais rapidamente e atrair mais capital, especialmente relevante para energia. "É uma mudança de paradigma que acelera a inovação, mas também cria novos riscos, como falhas operacionais e questões de governança", pondera Burg.

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Disputa geopolítica e impactos na Terra

Burg afirma que já é possível falar em uma disputa geopolítica por energia fora da Terra. "Hoje, a Lua é considerada um território internacional, mas há uma regra importante: quem extrai um recurso passa a ser dono dele. Isso cria um incentivo direto para uma corrida por recursos", explica. "Países que fazem parte dos acordos Artemis estão de um lado, enquanto China e Rússia avançam com seus próprios planos. No fundo, estamos vendo o início de uma corrida por recursos fora da Terra."

Historicamente, quem chega primeiro a um novo território tende a definir as regras, e Burg acredita que isso se repetirá no espaço. "A energia é um dos principais protagonistas, porque tudo depende dela. Se uma empresa ou país conseguir desenvolver sistemas mais eficientes de geração ou armazenamento no espaço, isso cria uma vantagem enorme", destaca. Além disso, as tecnologias desenvolvidas para o espaço podem ter impactos diretos na Terra. "Muitas das tecnologias desenvolvidas para o espaço acabam tendo aplicações aqui, muitas vezes de forma inesperada, gerando benefícios em eficiência, novos materiais e processos", conclui.

Sucesso do programa Artemis

O sucesso do programa Artemis, segundo Burg, dependerá da capacidade de manter o ritmo e o alinhamento entre governo e setor privado. "O programa tem apoio político relevante e, ao mesmo tempo, conta com a participação crescente de empresas. Isso aumenta a resiliência do projeto", afirma. "Se essa combinação se mantiver, a tendência é que vejamos um avanço consistente, não só na Lua, mas também como preparação para missões a Marte."