Empresa anuncia cópia de cérebro de mosca em computador, mas especialistas questionam afirmação
Um vídeo compartilhado nas redes sociais mostra uma mosca digital caminhando, se alimentando e limpando o próprio corpo em uma simulação virtual. À primeira vista, parece uma animação comum, mas a empresa Eon Systems, dos Estados Unidos, fez uma promessa ousada: pela primeira vez, um cérebro biológico teria sido "copiado" para dentro de um computador e colocado para funcionar. A afirmação rapidamente viralizou, gerando comparações com filmes de ficção científica e especulações sobre um possível "upload de mentes humanas". No entanto, especialistas ouvidos pelo g1 contestam essa visão, argumentando que o demonstrado está muito distante de tal feito.
O que realmente foi feito: um mapa de conexões, não um cérebro
A Eon Systems mapeou as conexões entre os neurônios do cérebro da mosca-das-frutas, Drosophila melanogaster, e usou esse mapa para controlar um corpo virtual em simulação. Esse avanço é reconhecido como inédito pelos pesquisadores, mas um mapa de conexões não equivale a um cérebro real. "É como ter o mapa das estradas de uma cidade sem saber o tipo de veículos, o trânsito ou as regras de circulação — você conhece a estrutura, mas não entende o fluxo real", explica o médico e neurocientista Rogério Panizzutti, pesquisador do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, que não teve relação com o estudo.
Panizzutti destaca que o modelo deixa de fora elementos cruciais para o funcionamento cerebral, como a identidade de cada neurônio, os sinais químicos trocados entre eles, a capacidade de reorganização ao longo do tempo e a influência do ambiente. Na prática, o sistema reproduz comportamentos básicos ao seguir o "mapa" de conexões, mas não incorpora a complexidade biológica que define como um cérebro realmente opera, limitando o alcance da simulação.
Detalhes do experimento e críticas da comunidade científica
Em outubro de 2024, Philip Shiu, cientista sênior da Eon Systems, e colaboradores publicaram na revista Nature um modelo computacional baseado no mapeamento do cérebro da mosca-das-frutas. Esse mapeamento, chamado conectoma, registrou mais de 125 mil neurônios e 50 milhões de conexões, reconstruídos a partir de imagens de microscopia eletrônica. Com base nisso, os pesquisadores criaram um modelo matemático que simula a propagação de sinais elétricos, prevendo com mais de 90% de acerto o disparo de células nervosas em respostas a estímulos como açúcar ou limpeza de antenas.
No entanto, a afirmação atual da Eon Systems vai além desse artigo, sem o mesmo respaldo científico. "Minha preocupação é com a forma como a Eon Systems tem apresentado esses avanços, especialmente ao falar em 'animais realmente carregados'. O que eles fizeram é limitado, baseado em trabalhos mais fundamentais, e essa ideia de 'upload' não se sustenta", critica Alexander Bates, pesquisador em neurobiologia da Harvard Medical School. A empresa integrou o modelo neural a um corpo virtual e a uma plataforma de física computacional, mas essa parte não foi publicada em artigos científicos nem passou por revisão independente, existindo apenas em vídeos no X e em postagens no blog da empresa.
Limitações do modelo e perspectivas futuras
Especialistas como João Luís Garcia Rosa, professor da USP, ponderam que o termo "emulação" é mais adequado, representando um avanço real, mas distante de reproduzir um cérebro completo. "A teoria na prática é outra — a física pode ser muito diferente do modelo teórico", diz Rosa, que pesquisa interfaces cérebro-computador. Ele avalia que o avanço está em mostrar o modelo funcionando em um corpo simulado, ampliando aplicações antes restritas ao ambiente computacional, mas ainda é uma representação simplificada.
André Luiz Paranhos Perondini, especialista em biologia evolutiva de moscas-das-frutas, acrescenta: "Não vejo objeção em chamar de 'mosca virtual', mas copiar o circuito do cérebro não cria uma mosca — apenas descreve seu funcionamento elétrico". O g1 entrou em contato com os fundadores da Eon Systems para comentar as críticas, mas não obteve resposta até a publicação. As principais questões em debate incluem como a empresa sustenta a afirmação de "carregar" um cérebro, o avanço em relação a estudos anteriores e os limites do modelo, que deixa de fora sinais químicos, adaptabilidade e influência ambiental.
Em resumo, enquanto a Eon Systems promove a ideia de um cérebro copiado, a comunidade científica enfatiza que o modelo atual é um passo inicial, útil para testar hipóteses sobre circuitos neurais, mas insuficiente para replicar a complexidade cerebral ou apoiar noções de transferência de mentes para computadores.



