Após 30 anos, vítimas do Césio-137 em Goiânia relatam falta de apoio médico contínuo
Vítimas do Césio-137 em Goiânia sofrem com falta de apoio médico após 30 anos

Três décadas depois: vítimas do Césio-137 enfrentam desafios no atendimento médico

Passados mais de 30 anos do maior acidente radiológico da história do Brasil, ocorrido em Goiânia em 1987, as vítimas continuam a relatar graves deficiências no apoio médico e assistencial. O desastre, que resultou em quatro mortes diretas e contaminou centenas de pessoas, permanece como uma ferida aberta na capital goiana, com sobreviventes enfrentando consequências de saúde de longo prazo sem o suporte adequado.

Comparação técnica com Chernobyl: diferenças fundamentais

Embora tanto o acidente de Goiânia quanto o desastre nuclear de Chernobyl, na Ucrânia (1986), figurem entre os maiores incidentes radioativos do mundo, existem diferenças técnicas significativas entre ambos. Conforme explica o professor de química da Universidade Federal de Goiás (UFG), Elias Yuki, o evento em Goiânia foi classificado como acidente radiológico, enquanto Chernobyl constituiu um acidente nuclear.

"O acidente de Chernobyl envolveu Urânio-238, isótopo utilizado principalmente para geração de energia. Já em Goiânia, tratava-se de uma fonte de Césio-137 destinada a equipamento médico para tratamento de câncer", esclarece o especialista.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Níveis de radiação e impacto diferenciado

Na Escala Internacional de Radiação (Ines), o acidente goiano atingiu o nível 5, enquanto Chernobyl alcançou o nível máximo 7. Apesar do Césio-137 emitir mais radiação que o Urânio-238, o professor Yuki ressalta que o desastre ucraniano foi consideravelmente mais letal devido à explosão em uma usina nuclear, que contaminou uma região muito mais extensa, incluindo atmosfera e solo.

"Em Chernobyl, houve muito mais mortes por contaminação direta e, a longo prazo, por exposição massiva ao material radioativo", detalha o acadêmico.

Meia-vida: uma diferença crucial no tempo de contaminação

Outro aspecto que distingue os dois eventos é o tempo de meia-vida dos materiais envolvidos. Enquanto o Césio-137 tem meia-vida de aproximadamente 30 anos (significando que metade do material já decaiu desde o acidente), o Urânio-238 possui meia-vida estimada em 4,5 bilhões de anos.

"Isso explica por que Chernobyl permanecerá inabitável por muito tempo, tanto pela massa de material radioativo quanto pela quantidade envolvida", informa o professor da UFG.

O desastre de Goiânia: como aconteceu

Em setembro de 1987, catadores de materiais recicláveis encontraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Ao removerem o lacre da cápsula que continha o Césio-137, desencadearam uma contaminação que rapidamente se espalhou.

As vítimas fatais foram:

  • Leide das Neves Ferreira, 6 anos
  • Maria Gabriela Ferreira, 35 anos
  • Israel Batista dos Santos
  • Admilson Alves de Souza

Monitoramento e assistência às vítimas

Imediatamente após o acidente, mais de 112.800 pessoas passaram por triagem no Estádio Olímpico de Goiânia. Desse total, 249 apresentaram algum grau de contaminação, sendo que 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.

Atualmente, mais de mil pessoas continuam frequentando o Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara), órgão criado em 2011 que substituiu a antiga Superintendência Leide das Neves (Suleide). O centro classifica os pacientes em três grupos:

  1. Pacientes com mais de 20 rads (unidade de medida de radiação)
  2. Pacientes com menos de 20 rads
  3. Vizinhos da área contaminada e trabalhadores que atuaram na descontaminação

Pontos ainda monitorados e legado permanente

Quase quatro décadas após o acidente, diversos pontos de Goiânia continuam sob monitoramento constante devido à contaminação residual. O equipamento radiológico envolvido no desastre era considerado obsoleto na época, e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) já orientava sua substituição por versões mais modernas e seguras.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

O acidente do Césio-137 em Goiânia permanece como um marco trágico na história brasileira, servindo como alerta para a necessidade de rigorosos protocolos de segurança no manejo de materiais radioativos e destacando a importância do apoio contínuo às vítimas de desastres tecnológicos de longo prazo.