Operação Heavy Pen desmantela rede criminosa de medicamentos contra obesidade
A Polícia Federal, em conjunto com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desarticulou um esquema milionário que comercializava versões ilegais de canetas antiobesidade em 12 estados brasileiros. A operação, batizada de Heavy Pen, foi deflagrada na última terça-feira, 7 de abril de 2026, e revelou uma rede complexa envolvendo clínicas médicas, importadoras e farmácias de manipulação.
Substâncias perigosas e irregularidades graves
Durante as ações, os agentes encontraram substâncias que colocam a saúde pública em risco, incluindo medicamentos manipulados sem prescrição médica, anestésicos com alto potencial de causar dependência e até mesmo levar à morte, como o fentanil. Além disso, foi localizada a retatrutida, um agonista triplo do GLP-1, GIP e glucagon que ainda está em fase de testes pela farmacêutica detentora da patente do Mounjaro e não possui registro de nenhuma agência reguladora mundial.
"Na inspeção de uma das importadoras da região metropolitana de São Paulo, foram identificados R$ 4,8 milhões em possíveis transações irregulares a partir de notas fiscais recolhidas. O montante incluiu a movimentação de 3,5 kg de tirzepatida, suficientes para produzir mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis, e 14 g de retatrutida, discriminadas no valor de R$ 39 mil", informou a Anvisa em nota oficial.
Estados envolvidos e apreensões significativas
A operação atingiu unidades federativas em todas as regiões do país:
- Acre
- Espírito Santo
- Ceará
- Goiás
- Mato Grosso
- Mato Grosso do Sul
- Paraná
- Roraima
- Rio Grande do Norte
- São Paulo
- Sergipe
- Santa Catarina
Foram cumpridos 45 mandados de busca e apreensão, resultando na localização de insumos para produção de mais de um milhão de canetas injetáveis. Em Goiás, a retatrutida foi apreendida, enquanto em São Paulo foram encontradas notas fiscais que comprovavam a comercialização da substância.
Casos específicos de irregularidades
No estado do Pará, os agentes encontraram uma situação particularmente preocupante: o princípio ativo do Mounjaro (tirzepatida) estava sendo armazenado em um consultório odontológico que funcionava dentro de uma academia. No mesmo local, foram apreendidos relógios, carros e motos de alto padrão, além de substâncias anestésicas de alta letalidade como propofol e fentanil.
Durante as fiscalizações, as equipes da Anvisa localizaram:
- Mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente
- 509 gramas do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) do princípio ativo
- Mais de 37 mil ampolas de outras substâncias
- 34.407 produtos manipulados sem prescrição médica
- 2.936 unidades de Lipo Blend (composto de HMB, cromo, taurina e outros)
Crescimento alarmante das apreensões
Segundo dados da Polícia Federal, o número de apreensões de canetas contra a obesidade irregulares tem apresentado um crescimento exponencial nos últimos anos:
- 2024: 609 unidades apreendidas
- 2025: 60.787 unidades apreendidas
- 2026 (até março): 54.577 unidades apreendidas
Os números de 2026, considerando apenas os primeiros três meses do ano, já representam quase 90% de todo o montante apreendido em 2025, indicando uma escalada preocupante do comércio ilegal desses produtos.
Medidas de controle e regulamentação
Diante do cenário alarmante, a Anvisa anunciou nesta semana um pacote de medidas para conter o comércio irregular de canetas antiobesidade à base de semaglutida e tirzepatida. O plano de ação, que será deliberado no próximo dia 15 de abril, conta com seis eixos principais:
- Parceria com agências reguladoras internacionais
- Fortalecimento da fiscalização nacional
- Aceleração da aprovação do registro de novas canetas contra obesidade
- Exigência de comprovação de segurança e eficácia
- Controle mais rigoroso de importação e distribuição
- Campanhas de conscientização sobre os riscos
A operação Heavy Pen representa um marco no combate ao comércio ilegal de medicamentos no Brasil, destacando a importância da atuação conjunta entre órgãos de segurança e agências reguladoras para proteger a saúde pública contra produtos que colocam em risco a vida dos cidadãos.



