Obesidade no Brasil mais que dobra em 17 anos: ultraprocessados são apontados como motor global
Obesidade no Brasil dobra; ultraprocessados são motor global

Obesidade no Brasil mais que dobra em menos de duas décadas, impulsionada por ultraprocessados

Os números da obesidade seguem uma trajetória alarmante de crescimento, sem sinais de desaceleração. Em escala global, estimava-se que em 2025 cerca de 2,3 bilhões de adultos estivessem acima do peso e aproximadamente 700 milhões com obesidade. No cenário brasileiro, os dados divulgados pelo Ministério da Saúde revelam uma transformação preocupante: a taxa de obesidade na população adulta mais que dobrou em um intervalo de apenas 17 anos, saltando de 11,8% em 2006 para expressivos 24,3% em 2023.

Mudança no padrão alimentar: a troca da comida de verdade por produtos prontos

Especialistas apontam que por trás dessa escalada vertiginosa está uma mudança profunda no padrão alimentar dos brasileiros. A tradicional comida de verdade, preparada em casa com ingredientes básicos, vem sendo progressivamente substituída por uma ampla gama de produtos prontos para consumo. Nesse debate, emerge com destaque a figura do epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, professor da Universidade de São Paulo (USP) e criador do conceito de alimentos ultraprocessados.

Segundo Monteiro, essa categoria não se limita a meros alimentos industrializados. Trata-se de produtos fabricados a partir de formulações que contêm pouco ou nenhum alimento inteiro em sua composição. Em seu lugar, entram ingredientes refinados e uma extensa lista de aditivos químicos, projetados para conferir cor, aroma, textura e aquele sabor artificial que estimula o cérebro a desejar repetições.

"São formulações químicas com pouco ou nenhum alimento e muitos aditivos para dar sabor de comida a algo que não é comida", resume o pesquisador.

O problema, portanto, vai muito além de uma simples contagem de calorias. Os ultraprocessados são desenhados para serem práticos, baratos, duráveis e, acima de tudo, irresistíveis ao paladar. Essa combinação, somada a fatores de risco já conhecidos como predisposição genética, alterações endócrinas e uso de certos medicamentos, estaria na raiz da atual pandemia de obesidade.

Observação do comportamento de compra e conexão com o ganho de peso

Foi ao analisar o comportamento de compra das famílias brasileiras ao longo dos anos que Monteiro e sua equipe começaram a estabelecer conexões claras. Notou-se uma tendência crescente de cozinhar menos em casa e uma dependência maior em relação a alimentos prontos. As listas de compras, outrora repletas de ingredientes básicos, deram lugar a carrinhos abarrotados de pacotes, caixinhas e bebidas adoçadas. Paralelamente, os indicadores de ganho de peso na população avançavam de forma consistente.

Discussão ganha dimensão internacional com alerta da The Lancet

Hoje, essa discussão transcende as fronteiras do Brasil e a esfera de um único pesquisador. O conceito de ultraprocessados conquistou relevância global, tornando-se tema de uma avalanche de estudos científicos. Pesquisas vêm associando dietas ricas nesses produtos não apenas à obesidade, mas também a um risco elevado de desenvolver doenças como diabetes, problemas cardiovasculares, depressão e até alguns tipos de câncer.

Um dos sinais mais robustos de que o debate alcançou status internacional veio de uma série publicada na prestigiada revista científica The Lancet. A coletânea, divulgada em dezembro de 2025, reuniu 43 cientistas de diversos países, incluindo Carlos Monteiro, para avaliar minuciosamente o impacto dos ultraprocessados na saúde humana.

O editorial que acompanha a série é enfático: "é hora de colocar a saúde acima do lucro". Os autores defendem que o cerne da questão não reside apenas em "comer demais" ou exagerar no consumo de açúcar e gordura. A preocupação central é com um padrão alimentar inteiro, baseado em ultraprocessados, que vem substituindo progressivamente as dietas tradicionais – aquelas centradas em alimentos in natura ou minimamente processados e no preparo culinário das refeições.

Avanço global dos ultraprocessados e aumento no consumo calórico

Este não é um fenômeno localizado. De acordo com os artigos da série, a participação dos ultraprocessados na alimentação aumentou de forma marcante em diferentes regiões do mundo nas últimas décadas. Inquéritos nacionais citados pelos autores revelam dados expressivos:

  • Na Espanha, a fatia energética desses produtos triplicou, passando de 11% para 32% em cerca de três décadas.
  • Na China, o percentual subiu de 4% para 10% no mesmo período.
  • No México e no Brasil, o avanço foi de 10% para 23% ao longo de quatro décadas.
  • Em países como Estados Unidos e Reino Unido, essa participação se mantém acima de 50% há pelo menos duas décadas.

A coletânea também destaca que esse aumento tende a vir acompanhado de um salto significativo no consumo total de calorias. Uma meta-análise com dados de 13 países estimou que, a cada incremento de 10% na proporção de ultraprocessados na dieta, a ingestão diária total de energia cresce, em média, 34,7 kcal.

Os cientistas explicam que isso ocorre devido às características intrínsecas desses produtos, que estimulam o consumo excessivo: alta densidade energética, textura macia, hiperpalatabilidade (a famosa sensação de "difícil parar de comer") e fórmulas que frequentemente contêm quantidades elevadas de açúcar, gordura e sódio, com teores reduzidos de fibras e proteínas. É uma combinação que facilita comer mais e sentir saciedade por um período mais curto.

Formação de coalizões e políticas públicas integradas

Os pesquisadores defendem que os ultraprocessados devem ser reconhecidos como uma questão global de saúde pública, impulsionada por interesses comerciais, de maneira análoga ao que ocorreu com o tabaco. "A questão agora é que essas indústrias continuam lucrando, enquanto o resto da economia sai perdendo, com as pessoas adoecendo e morrendo mais cedo", afirma Carlos Monteiro.

Para enfrentar esse desafio complexo, o documento sugere a construção de coalizões internacionais robustas, reunindo sociedade civil, especialistas, governos, organismos como a ONU e a mídia. Além disso, recomenda a implementação de políticas públicas integradas e multifacetadas, que incluam:

  1. Estabelecimento de impostos específicos sobre ultraprocessados.
  2. Restrições rigorosas ao marketing direcionado a crianças e adolescentes.
  3. Adoção de rotulagem frontal mais clara e informativa.
  4. Direcionamento de compras públicas para incentivar alimentos saudáveis.

Transição justa e proteção às famílias vulneráveis

Os cientistas enfatizam que qualquer transição para dietas com menor consumo de ultraprocessados precisa ser conduzida de forma justa e equitativa. É crucial evitar a estigmatização de indivíduos e proteger a segurança alimentar, especialmente das famílias em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica.

Entre as recomendações específicas, estão medidas para reduzir o poder corporativo das grandes indústrias de alimentos, redistribuir recursos de forma mais justa, ampliar o acesso de populações de baixa renda a alimentos frescos e saudáveis, e revisar criticamente incentivos econômicos, como subsídios ligados a commodities utilizadas como base para ingredientes industriais.

A epidemia de obesidade, portanto, é apresentada não como um destino inevitável, mas como um fenômeno profundamente influenciado por escolhas alimentares induzidas por um ambiente obesogênico. A mudança exigirá esforços coordenados em múltiplas frentes, colocando a saúde da população no centro das decisões políticas e econômicas.