Mulher em estado grave após usar caneta emagrecedora ilegal do Paraguai
Uma mulher está internada em estado grave em um hospital de Belo Horizonte, Minas Gerais, após utilizar uma caneta emagrecedora ilegal conhecida como Lipoless, produto que é trazido clandestinamente do Paraguai para o Brasil. A paciente, identificada como Kellen Oliveira Bretas Antunes, começou a apresentar sérias complicações de saúde logo após iniciar o uso do medicamento, que foi vendido a ela como sendo composto por tirzepatida, a mesma molécula presente no remédio Mounjaro, aprovado para tratamento de diabetes tipo 2 e também utilizado para emagrecimento.
Produto proibido e sem registro na Anvisa
A Lipoless não possui qualquer registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o que significa que sua circulação no território brasileiro é totalmente ilegal. Desde o ano passado, a Anvisa proibiu expressamente a comercialização deste produto, mas ele continua sendo amplamente anunciado nas redes sociais, especialmente no Facebook e Instagram, plataformas da Meta. Em uma busca realizada recentemente, foram encontrados mais de trezentos anúncios ativos oferecendo a caneta emagrecedora, muitos deles sem exigência de prescrição médica e com promessas de entrega rápida diretamente na casa do comprador.
Especialistas alertam que a falta de regulamentação torna o produto extremamente perigoso, pois não há garantias sobre sua composição química, concentração adequada ou condições de armazenamento e transporte. O endocrinologista Rodrigo Lamounier, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, explica que um medicamento precisa passar por rigorosos testes de segurança antes de ser liberado para uso, algo que definitivamente não ocorre com a Lipoless.
Riscos à saúde e complicações graves
No caso de Kellen, o uso da caneta emagrecedora desencadeou uma série de problemas de saúde que a levaram a múltiplas internações. Ela foi hospitalizada pela primeira vez em dezembro com dores abdominais e recebeu alta com suspeita de intoxicação medicamentosa. Poucos dias depois, começou a apresentar perda muscular significativa, fraqueza extrema, urina escura e, posteriormente, desenvolveu insuficiência respiratória e complicações neurológicas graves.
O médico responsável pelo caso destaca que a paciente pode ter tido uma predisposição genética, mas o gatilho para o agravamento de sua condição foi claramente o uso do medicamento ilegal combinado com a perda de peso abrupta. Lamounier enfatiza que as pessoas não devem subestimar os riscos associados a esses produtos, pois o uso sem acompanhamento médico adequado expõe os indivíduos a perigos sérios sem oferecer benefícios reais para a saúde.
Comércio ilegal e desafios de fiscalização
A caneta Lipoless é produzida no Paraguai por uma farmacêutica local que não respeita as patentes internacionais, diferentemente do que ocorre no Brasil. Isso permite a fabricação e venda da tirzepatida no país vizinho, mas sua importação para o território brasileiro configura uma violação das leis sanitárias e de propriedade intelectual. A Polícia Federal já interceptou diversas tentativas de contrabando do produto, com pessoas tentando entrar no país com as canetas escondidas no corpo ou em veículos.
O transporte clandestino aumenta ainda mais os riscos, pois não segue parâmetros mínimos de segurança e pode comprometer a estabilidade da substância. Apesar dos esforços das autoridades, a venda online continua a florescer, com anúncios que oferecem a Lipoless por valores que variam de R$ 632 a quase R$ 2 mil, muitas vezes com um "cardápio" de dosagens para o cliente escolher por conta própria.
Alerta para a população
Esta situação serve como um alerta urgente para os perigos do consumo de medicamentos não regulamentados. A Anvisa mantém uma lista de dezenas de remédios aprovados para o tratamento de diabetes e obesidade, todos eles sujeitos à exigência de receita médica retida no momento da compra. O caso de Kellen ilustra tragicamente as consequências que podem ocorrer quando pessoas buscam soluções rápidas para o emagrecimento sem considerar os riscos envolvidos.
A família da paciente ainda não sabe como ela conseguiu adquirir o produto ilegal, mas o episódio reforça a necessidade de campanhas educativas sobre os perigos da automedicação e do consumo de substâncias não autorizadas pelas autoridades sanitárias brasileiras.