Morte de menino de 9 anos em Campo Grande gera suspeita de negligência médica
A morte do menino João Guilherme Jorge Pires, de apenas 9 anos, tem causado comoção e revolta em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. A família suspeita de negligência médica no atendimento recebido em várias unidades de saúde da cidade, após uma simples queda em casa. O velório da criança aconteceu nesta quarta-feira (8), enquanto a Polícia Civil investiga as circunstâncias do óbito.
"Como uma criança saudável morre após trincar o joelho?"
"Como uma criança saudável, sem nenhuma doença, trinca o joelho e morre? Isso não entra na nossa cabeça", desabafou a tia do menino, Adriana Soares. Segundo ela, tudo começou na quinta-feira (2), quando João caiu enquanto brincava em casa, aparentemente apenas "trincando o joelho". A família o levou a um posto de saúde, mas afirma que não foram realizados exames mais detalhados.
"Não fizeram todos os procedimentos. Disseram que era só um machucado e passaram dipirona e ibuprofeno", relatou Adriana. A situação começou a piorar no domingo (5), e na segunda-feira (6), João apresentou agravamento do quadro, com manchas roxas pelo corpo. Ao ser levado novamente ao posto, já bastante debilitado, a família enfrentou demora no atendimento.
"Disseram que não tinha maca. Colocaram ele no chão para tentar socorrer", contou a tia. Durante o atendimento, os profissionais informaram à família a suspeita de um coágulo. Após tentativa de intubação, o menino teria apresentado sangramento intenso. Ele chegou a ser estabilizado momentaneamente e foi encaminhado para a Santa Casa de Campo Grande, mas não resistiu após nova parada cardíaca.
Sequência de atendimentos médicos
Uma série de idas e vindas a unidades de saúde marcou os últimos dias de vida da criança em Campo Grande. Conforme relato da família à polícia:
- Quinta-feira (2 de abril) - Após cair e bater o joelho, foi levado à UPA Tiradentes. Realizou raio-X, sem lesões aparentes, e foi liberado com prescrição de dipirona e ibuprofeno.
- Sexta-feira (3 de abril) - Como não houve melhora, foi ao IPA Universitário. Após avaliação, recebeu a mesma medicação e foi liberado novamente.
- Sábado (4 de abril) - Procurou atendimento na UPA Universitário. Foi medicado com injeção e se queixava de dores no peito, tratadas como ansiedade.
- Domingo (5 de abril) - Retornou à UPA Universitário, onde permaneceu em observação. Novo raio-X identificou lesão na perna, com orientação para procurar a Santa Casa no dia seguinte.
- Segunda-feira (6 de abril) - Na Santa Casa, teve a perna esquerda imobilizada com tala e foi liberada.
- Noite de segunda-feira (6 de abril) - Em casa, passou mal, desmaiou e ficou com coloração roxa. Foi levado desacordado à UPA Universitário, onde foi reanimado e entubado.
- Madrugada da terça-feira (7) - Transferido para a Santa Casa, não resistiu. O óbito foi confirmado às 1h05.
Investigação em andamento
Após o registro do boletim de ocorrência, a Polícia Civil solicitou exame necroscópico. O caso deve ser encaminhado para a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), que analisará a sequência de atendimentos e apurará possíveis negligências.
A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou em nota que o caso está sendo investigado com base em prontuários e registros médicos. "Todas as responsabilidades serão rigorosamente verificadas e, caso sejam identificados eventuais desvios de conduta, as medidas cabíveis serão adotadas", afirmou a secretaria.
Memória de uma criança alegre
João Guilherme é lembrado pelos familiares como uma criança alegre, brincalhona e muito querida. "Ele estava sempre sorrindo, fazendo piada. Desenhava muito bem, gostava de futebol. Era um menino amoroso", contou a tia. A irmã, Estefany Jorge Menezes, também falou sobre a dor da perda: "A gente era cinco, agora somos quatro. Vai ser muito difícil".
O menino era assistido pela Fundação Ueze Zahran, que divulgou nota de pesar lembrando sua alegria, sensibilidade e amor pela música. A família afirma que pretende buscar Justiça. "A gente não quer dinheiro, a gente quer justiça", disse Adriana Soares.
O velório aconteceu na Funerária Pax Nipo Brasileira, em Campo Grande, e o sepultamento foi realizado no Cemitério Jardim da Paz, na saída para Sidrolândia.



