Transtorno de jogos de azar online já é problema de saúde pública no Brasil
Jogos de azar online são problema de saúde pública no Brasil

Transtorno de jogos de azar online já é problema de saúde público no Brasil

As apostas online, conhecidas popularmente como bets, e especialmente os caça-níqueis virtuais, deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se transformarem em uma grave questão de saúde pública. A situação já rivaliza em gravidade com as dependências de álcool e tabaco, conforme alerta o especialista Claudio Lottenberg, presidente institucional do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Einstein Hospital Israelita.

Um problema que afeta milhões

A combinação de acesso fácil através de smartphones com publicidade maciça criou um ambiente extremamente propício para o aumento no número de jogadores frequentes. Isso resultou no surgimento de um contingente significativo de pessoas em risco de desenvolver um distúrbio que impacta profundamente a saúde mental, os vínculos familiares e as relações sociais, podendo levar a desfechos imprevisíveis e devastadores.

O reconhecimento científico deste problema ocorreu quando pesquisas em neuroimagem demonstraram que o cérebro de pessoas com compulsão por jogo ativa os mesmos circuitos de recompensa envolvidos na dependência de substâncias como álcool, cocaína e opioides. Embora o comportamento compulsivo associado ao jogo seja conhecido há tanto tempo quanto o alcoolismo, a ciência demorou a superar a controvérsia em torno da ideia de associar dependência a algo que não fosse uma substância química.

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Dados alarmantes no Brasil

O Lenad III (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revelou dados preocupantes no final de 2025:

  • Quase 11 milhões de brasileiros (7,3% da população) apresentavam comportamento de risco ou problemático em relação a jogos
  • Em 1,4 milhão de pessoas, já eram perceptíveis sintomas de transtorno do jogo
  • Os sites de apostas esportivas já contam com a adesão de 9 milhões de pessoas (5,6% da população total)
  • Entre os usuários de apostas esportivas, 66,8% já apresentam comportamento de risco

As características das plataformas digitais explicam esses números alarmantes. Além da facilidade de acesso, os sites oferecem recursos como a repetição rápida, que suprime o tempo de reflexão, e o cash out, que cria uma sensação ilusória de controle. Na prática, os aplicativos estimulam padrões compulsivos de comportamento.

Evolução do transtorno e grupos vulneráveis

O risco começa a se evidenciar quando o jogador aposta mais do que pretendia, passa a ter prejuízos financeiros leves ou moderados, sente ansiedade ou culpa depois de apostar e, principalmente, quando entra no círculo vicioso de jogar mais para tentar recuperar perdas. Quando evolui, o transtorno leva à perda total do controle sobre o ato de apostar.

Os grupos mais vulneráveis, segundo o levantamento da Unifesp, são:

  1. Usuários de plataformas digitais
  2. Adolescentes
  3. Pessoas com renda inferior a um salário-mínimo

Indivíduos com renda inferior a um salário mínimo correm três vezes mais risco de apresentar um padrão de jogo de risco ou problemático. Um relatório divulgado em 2024 pelo Banco Central mostrou que essa população economicamente vulnerável havia destinado R$ 3 bilhões às bets apenas no mês de agosto do mesmo ano, quando o programa Bolsa Família como um todo distribuiu R$ 14,12 bilhões.

Medidas tomadas e desafios do SUS

Algumas medidas já foram implementadas, incluindo:

  • Proibição de que menores de 18 anos se cadastrem ou joguem em plataformas de apostas a dinheiro
  • Bloqueio de publicidade de bets direcionada a crianças e adolescentes
  • Restrição a que beneficiários do Bolsa Família mantenham contas em sites de aposta

Esta última medida foi confirmada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que decidiu vetar o acesso dos beneficiários de programas sociais aos sites de apostas.

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No entanto, o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa se atualizar para enfrentar este fenômeno que rapidamente ganhou grandes proporções. Ainda faltam protocolos consolidados de triagem, diagnóstico e tratamento, e a maioria dos profissionais não tem formação adequada para lidar com esse tipo de transtorno. Os Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS-AD) foram criados para tratar dependência de substâncias, não distúrbios de comportamento.

Iniciativas em andamento e necessidades futuras

O Ministério da Saúde anunciou recentemente a criação do primeiro serviço de teleatendimento do SUS voltado ao vício em apostas. Foi desenvolvido um autoteste, possivelmente baseado no protocolo PGSI (Problem Gambling Severity Index), que permite medir a gravidade de comportamentos problemáticos de jogo e classificar o nível de risco do usuário.

Além de tratar os doentes, é necessário atuar na prevenção e regulamentação. É preciso:

  • Regular o mercado, com a incorporação de medidas de redução de danos nos aplicativos de apostas
  • Implementar pausas forçadas, proibição de bônus agressivos, ferramentas de autoexclusão e rastreamento de comportamento de risco
  • Combater o estigma que inibe a busca de auxílio
  • Realizar campanhas permanentes de esclarecimento e orientação sobre como e quando procurar ajuda

O desafio é complexo, pois nem todos os sites de apostas têm sede no Brasil e muitos atuam às margens da lei. Mas, como destaca o especialista, não podemos ficar de braços cruzados diante de um problema que já afeta milhões de brasileiros e suas famílias.