Fila de espera ultrapassa dois meses para atendimento odontológico em Manduri (SP)
Fila de espera para dentista em Manduri (SP) supera dois meses

Crise odontológica em Manduri: fila de espera ultrapassa dois meses na rede pública

Os moradores de Manduri, cidade do interior paulista com pouco mais de 10 mil habitantes, estão enfrentando uma grave crise no atendimento odontológico público. A fila de espera para consultas e procedimentos ultrapassa dois meses, obrigando muitos pacientes a buscar alternativas na rede privada, nem sempre acessível financeiramente.

Denúncia de profissional revela situação alarmante

Um dentista da cidade, que preferiu manter o anonimato, relatou ao g1 que a demora na rede pública tem levado pacientes a situações de emergência. "Cheguei a gravar uma paciente que passou no meu consultório em uma situação desse tipo. Mas não é apenas uma paciente, isso acontece com frequência", afirmou o profissional.

O dentista tomou medidas drásticas diante da situação:

  • Organizou um abaixo-assinado
  • Protocolou denúncia no Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CRO-SP)
  • Pretende levar o caso ao Ministério Público

"A prefeitura está ciente de tudo isso, mas nada é feito", lamentou o denunciante.

Falta de profissionais agrava o problema

De acordo com uma lei complementar sancionada em 2022, a Prefeitura de Manduri prevê cinco vagas para dentistas na rede pública municipal. No entanto, a realidade é bem diferente:

  1. Apenas dois profissionais estão em atividade
  2. Um deles não realiza extrações dentárias devido a problemas nas mãos
  3. Os três postos de saúde da cidade (incluindo um em distrito afastado) dependem do revezamento de um único dentista

"O outro dentista continua recebendo o salário integral, mesmo sem fazer uma função básica da profissão", denunciou o profissional.

Pacientes relatam sofrimento e dificuldades

Uma paciente que preferiu não se identificou contou sua experiência traumática. Após perceber um inchaço anormal na bochecha, ela passou cinco horas esperando atendimento no posto de saúde de Manduri, das 9h às 14h, sem sucesso.

"Procurei o convênio particular depois dessa espera interminável", relatou a mulher, que foi diagnosticada com um abscesso dentário - infecção grave causada pela falta de tratamento em um dente com canal.

"É uma demora imensa para ser atendido. Eu marquei um exame que a fila de espera ultrapassava dois meses, e não era para ser assim, visto o meu diagnóstico", desabafou.

Mais relatos de dificuldades no atendimento

Outra paciente, que também não quis se identificar, descreveu um verdadeiro peregrinar entre unidades de saúde:

  • Foi encaminhada de um posto para outro
  • Recebeu apenas avaliação básica e pedido de retorno com longa espera
  • Precisa fazer raio-X particular que custa R$ 110, valor inacessível
  • Descobriu necessidade de extrair dois dentes do siso

A situação é especialmente difícil para ela, que tem duas crianças pequenas e não consegue se locomover para locais mais distantes. "Se você chegar lá em uma situação de emergência, com dor ou qualquer coisa envolvendo crianças, eles mandam direto para a policlínica. No posto, eles não atendem se não tiver agendamento", explicou.

Posicionamento das autoridades

A Prefeitura de Manduri afirmou em resposta ao g1 que está ciente da situação e tem tomado medidas para diminuir o tempo de espera. A administração municipal confirmou que há três profissionais atuando na rede pública (uma informação diferente da denúncia) e prometeu resolver o problema "o quanto antes", sem especificar prazos.

O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CRO-SP) informou que recebeu uma denúncia anônima sobre a situação da rede odontológica na cidade e está investigando o caso. Caso sejam confirmados os problemas, o Conselho tomará medidas administrativas disciplinares contra os responsáveis.

Os procedimentos de fiscalização e processos disciplinares tramitam em sigilo devido à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ao Código de Processo Ético, conforme explicou o órgão em nota oficial.