Tenho pensado que uma das grandes habilidades deste século, talvez deste milênio, é aprender a conviver com a incerteza. Ela deixou de ser um ruído ao fundo e passou a se sentar à mesa conosco todos os dias. Vivemos em um cenário de tensões, crises e notícias que entram pela nossa casa em um fluxo de informações que parece não ter fim. Mesmo não estando diretamente no campo do conflito, somos afetados por ele – pelas imagens, pelas narrativas e pela forma como esses conteúdos penetram em nosso sistema nervoso.
A mente humana não foi desenhada para viver em estado de permanente ameaça, sobretudo quando é uma ameaça sobre a qual não temos controle. Isso se traduz em aceleração mental, podendo gerar uma sensação de cansaço, que nem sempre está ligado ao “fazer demais”, mas ao “pensar demais”. E ao “ouvir demais” previsões e opiniões. Você, leitor, tem se sentido assim?
O contato perdido com o momento presente
Uma de minhas reflexões é que, em meio a tantas visões futuras sobre o mundo e a humanidade, estamos perdendo um contato essencial: o com o momento presente, com o que é real para nós e com nós mesmos. Hoje, não carregamos apenas as experiências diretas que vivemos. Carregamos também as notícias que lemos, os vídeos que assistimos sem critério de seleção, as diferentes falas das redes sociais que escutamos no automático, sem nem saber exatamente por que estamos escutando.
A influência dos conteúdos na mente
Há alguns anos assisti ao vídeo de uma palestra com o neurocientista Richard Davidson, conhecido por seus estudos sobre estados da mente e por sua proximidade com o Dalai Lama. Nessa palestra, ele falava sobre a responsabilidade consciente que deveríamos ter sobre o que permitimos que penetre em nossas mentes. Explicava como tudo o que se introduz em nossa mente, mesmo de forma passiva, como quando assistimos TV para “relaxar”, deixa seu registro em nosso cérebro. Podemos estar construindo uma biblioteca de conteúdos que não selecionamos e que não temos como apagar totalmente. Dessa forma, podemos estar amplificando tensões, medos e expectativas negativas.
A importância de estar presente
Uma das ideias que quero compartilhar com você, leitor, voltando à questão de que estamos perdendo o contato com o momento presente, é que “estar presente” não significa que irá “resolver a vida”, mas, cada vez que conseguimos aterrissar no momento presente, ainda que por segundos, interrompemos a aceleração contínua da mente, que nos joga entre passado e futuro. Esses pequenos momentos de interrupção funcionam como um realinhamento interno. É como se, por instantes, pudéssemos “encarnar de novo”, reorganizar nossa percepção e abrir um espaço por onde respostas mais profundas possam emergir.
Uma mente acelerada dificilmente produz insights, porque o excessivo movimento na superfície da mente impede que ideias claras e inovadoras emerjam de um nível mais profundo da mente.
A metáfora do oceano
Uma imagem útil para entendermos os níveis da mente é a do oceano. Na superfície, as ondas, as correntes se movendo, ventos, tempestades. À medida que se desce na direção das profundezas, todo esse movimento vai cessando. No fundo do oceano existe apenas silêncio. O mesmo acontece em nossa mente. Na superfície, agitação, oscilação, inquietação. Dentro de nós também existe um nível profundo de consciência, que percebe tudo, sabe da tensão do corpo, dos movimentos emocionais e da turbulência, mas não se confunde com eles.
A serenidade surge quando deixamos de viver exclusivamente na superfície e nos permitimos alguns mergulhos em nosso interior. Não se trata de escapar ou negar o mundo, mas de ampliar a perspectiva. Viver apenas na superfície estreita o sentido de vida; conhecer nossas profundezas nos devolve um significado mais amplo, uma clareza que não depende do fim dos problemas para existir.
Convite para a prática
Com isso, caro leitor, o convido a algumas interrupções na aceleração da superfície da mente, para alguns mergulhos em sua profundeza oceânica. Nada complicado, apenas deixe celular, computador, etc... feche os olhos e respire com calma. Inspire e expire sentindo sua presença. Essa presença da qual você muitas vezes tem se esquecido.
Berenice Kuenerz, psicoterapeuta, mentora de autoliderança e alta performance.



