A dor nas costas é uma experiência quase universal, atingindo a maioria das pessoas em algum momento da vida. Embora normalmente seja passageira, episódios recorrentes podem se tornar debilitantes, transformando tarefas simples em grandes desafios. A complexidade da espinha dorsal, conectada a costelas, quadris, tendões, ligamentos e nervos, significa que a dor pode surgir de problemas em qualquer uma dessas estruturas.
Um problema de saúde global em ascensão
O cenário futuro é preocupante. De acordo com o estudo Global Burden of Disease (GBD), realizado pelo Instituto de Medidas e Avaliação da Saúde da Universidade de Washington, a quantidade de indivíduos com dores na região lombar deve aumentar mais de um terço entre 2020 e 2050. A projeção indica que, até meados do século, mais de 10% da população mundial será afetada.
Em termos de impacto na saúde global, apenas acidentes vasculares cerebrais (AVCs), doenças cardíacas, pulmonares, diabetes e condições neonatais superam as dores nas costas. A região lombar é a mais frequentemente afetada por suportar mais movimento e tensão, mas incômodos também são comuns na parte superior, especialmente no pescoço e ombros.
A importância do diagnóstico correto
O princípio de diagnosticar antes de tratar é crucial para as dores nas costas, dada a multiplicidade de causas possíveis. Não existe um exame único para o diagnóstico. Médicos iniciam o processo descartando condições graves, como problemas renais, da vesícula biliar ou certos tipos de câncer.
O caminho para um diagnóstico preciso geralmente envolve exame físico, análise do histórico médico, exames de sangue para detectar inflamações ou câncer, e exames de imagem como raio-X, tomografia ou ressonância magnética para avaliar ossos, discos e tecidos.
A cirurgiã especializada em coluna Areena D'souza destaca que a abordagem em crianças requer atenção especial. "As crianças pulam o tempo todo. Eu preciso descobrir: se elas se machucaram nessas atividades; se existe alguma má formação oculta dos músculos ou do esqueleto; se os pais também apresentam propensão a sofrer de dores nas costas; se a sua alimentação é balanceada", explica a médica, que já atuou como pediatra na Índia e na Inglaterra.
Ela também alerta para um fenômeno específico da infância: "a espinha da criança, às vezes, cresce muito mais rápido que o restante dos ossos", o que pode ocasionar dores.
Mente e movimento: pilares da recuperação
Especialistas alertam que o medo pode ser um grande obstáculo. O receio de sentir dor novamente pode minar a confiança do paciente e levá-lo a evitar atividades, mesmo quando não há mais um problema físico agudo. "O medo faz com que eles fiquem muito menos ativos. Alguns chegam a suspender atividades de que eles gostam", comenta Adam Siu, diretor da clínica Down2U Health and Wellbeing, na Inglaterra.
Essa realidade levou a uma abordagem mais holística. "Todas as orientações, em todo o mundo, falam agora da necessidade de abordar fatores físicos, psicológicos e sociais", afirma o professor de fisioterapia Mark Hancock, da Universidade Macquarie, na Austrália. Terapias como a TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) ou abordagens funcionais podem ajudar os pacientes a entender os fatores que perpetuam a dor e a retomar gradualmente suas atividades favoritas.
Contra a intuição de muitos, o repouso absoluto não é a solução. A Associação Britânica de Cirurgiões da Espinha (BASS) e uma década de pesquisas reforçam que permanecer ativo é fundamental para controlar a dor e que o descanso prolongado pode atrasar a recuperação.
Adam Siu explica que a coluna é uma estrutura projetada para o movimento, com curvas naturais e discos que atuam como amortecedores. Manter-se muito tempo na mesma posição, seja sentado ou em pé, enfraquece essa estrutura. Para quem tem uma vida sedentária ou trabalha em escritório, pausas para alongamento e o uso das escadas são recomendados. Profissionais que carregam peso, como na construção civil, devem seguir rigorosamente as técnicas de segurança e buscar orientação de um fisioterapeuta para exercícios específicos.
Casos específicos: gravidez e uso de analgésicos
A gravidez é um período de risco para dores nas costas, mesmo nos estágios iniciais. O hormônio relaxina, produzido para preparar o corpo para o parto, também afrouxa ligamentos na coluna, podendo causar desconforto. Com o crescimento do feto, mudanças posturais e no centro de gravidade agravam o quadro. Dicas para gestantes incluem mover os pés ao virar o corpo para evitar torções, usar calçados adequados e recorrer a travesseiros de apoio e colchões de qualidade.
Em relação aos analgésicos, Adam Siu orienta que medicamentos anti-inflamatórios comuns podem ser úteis no estágio inicial para manter a mobilidade. No entanto, usá-los por semanas ou anos sem tratar a causa subjacente significa apenas mascarar o problema. A BASS desmente o mito de que aliviar a dor com analgésicos simples pode levar a pessoa a se machucar mais, pois os reflexos protetores do corpo permanecem intactos. A entidade recomenda sempre discutir o uso de qualquer medicamento com um farmacêutico ou médico.