Cogumelos funcionais na mira da Anvisa: moda promete bem-estar, mas falta comprovação científica
Cogumelos funcionais: Anvisa suspende produtos sem comprovação

Cogumelos funcionais: entre a tradição milenar e a moda contemporânea

Os cogumelos intrigam a espécie humana desde as mais antigas civilizações por suas alardeadas promessas de ensejar o bem-estar físico e mental. Usados na China há mais de 2 000 anos, ostentavam o status de "erva superior", naturalmente reservada à realeza que buscava fortalecer o sistema imunológico, acalmar a cabeça e esticar a vida. Em povoados indígenas no norte da Europa e da Sibéria, tais fungos eram adicionados ao chá na esperança de que a infusão aumentasse a resistência do corpo exposto às gélidas temperaturas.

Popularidade crescente e apoio de celebridades

Foco e clareza, metabolismo em dia, maior disposição e até libido em alta são alguns dos ganhos relatados pela turma que resolveu experimentá-los mundo afora — quase tudo ainda sujeito a estudos científicos mais conclusivos, embora abraçados com entusiasmo por famosos como o cantor Lulu Santos, o jornalista Nelson Motta e a modelo Gisele Bündchen, que declarou: "Eles realmente ajudam a me concentrar e a ter maior energia".

Um termômetro da vitalidade dos cogumelos batizados de funcionais, para fazer uma distinção dos alucinógenos, é sua acelerada expansão: o mercado desses espécimes, que atendem por nomes criativos (juba-de-leão, cordyceps, reishi) e são consumidos de formas variadas e mais palatáveis que o gosto amargo in natura (em pó, pílula, mesclados a bebidas e barrinhas), deve cravar globalmente 130 bilhões de reais até 2030, crescendo ano a ano, segundo um estudo da consultoria Allied Market Research.

Intervenção da Anvisa e alertas médicos

Dada a imensa procura e o colosso de incertezas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu recentemente uma série desses produtos, que prometem mundos e fundos sem comprovação. Um deles oferecia "extrato de cogumelo rico em vitamina D", sem eficácia testada.

Trata-se, portanto, de entrar na onda somente a partir de indicações de profissionais de saúde, sem invencionices, ainda que pareça seguro ingerir essa família de produtos. "Não existem registros de morte ou de intoxicação grave com cogumelos na literatura mundial", afirma a médica Mariane Ventura, dedicada à fitoterapia. Mas há ainda, insista-se, escassez de pesquisas em humanos que comprovem os efeitos terapêuticos de tais fungos.

Estudos preliminares e evidências promissoras

Por ora, investigações preliminares em animais sinalizam que o juba-de-leão ajudou na recomposição de células do sistema nervoso, o que frearia eventuais perdas motoras, e que o cordyceps e o reishi, de outra classe de cogumelos, apresentaram ação protetora e anti-inflamatória na flora intestinal.

Nos últimos tempos, começaram a surgir na cena científica, aqui e ali, trabalhos de relevo sobre os cogumelos funcionais envolvendo humanos. Um deles, encabeçado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, examinou uma amostra de 30 000 homens e mulheres para observar quanto o consumo regular de cogumelos contribuía para uma mente mais afiada. Conclusão: quem os adicionou ao menu obteve resultado melhores em testes cognitivos — o que ainda requer um mergulho mais fundo.

Riscos da autoprescrição e necessidade de cuidado

O fácil acesso preocupa o meio médico, unânime em apontar os perigos da autoprescrição dos cogumelos funcionais. "Ser natural não significa que não pode fazer mal", alerta Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição e professora da Universidade Federal Fluminense. A necessidade de acompanhamento profissional é ainda maior para quem toma remédios cuja interação com tais fungos é desconhecida e pode ser prejudicial.

Há milênios, a humanidade vem se beneficiando do cultivo e da ingestão de alimentos que ajudam a manter a boa saúde, mas, antes de embalar em qualquer onda, e elas são muitas nos dias de hoje, convém lembrar a máxima cunhada pelo filósofo Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.), considerado o pai da medicina: "Que teu alimento seja teu remédio". Para que seja mesmo, já diria o grego, é bom se fiar mais na ciência do que em crenças mágicas antes de levar o garfo à boca.