Mutirão oftalmológico na Bahia provoca cegueira em pacientes e leva à morte de idoso
A família de um idoso de 72 anos ingressou com ação judicial contra o Hospital Ceom, em Irecê, no norte da Bahia, após o paciente falecer devido a complicações de um procedimento oftalmológico. A unidade de saúde está sendo investigada pela perda total ou parcial da visão de mais de 20 pessoas que participaram de um mutirão realizado entre os dias 27 e 30 de março.
Idoso morre após perder visão em ambos os olhos
Gilberto Pereira Pontes foi submetido a uma aplicação intravítrea no dia 28 de fevereiro e, dias depois, começou a sentir fortes dores nos olhos e na cabeça. Ao buscar atendimento, diagnosticou-se uma grave infecção chamada endoftalmite, que resultou na perda completa da visão em ambos os olhos. O idoso faleceu no dia 31 de março e foi sepultado em Irecê.
Segundo o advogado Joviniano Dourado Lopes Neto, que representa a família de Gilberto e outros 11 pacientes, o hospital não forneceu anestesia adequada durante as aplicações intraoculares de antibióticos. "O Sr. Gilberto conseguiu suportar apenas a primeira aplicação. Ao ser submetido à segunda, recusou-se devido à dor insuportável, o que permitiu que a infecção evoluísse de forma agravada", afirmou o profissional.
Polícia Civil apreende documentos e prontuários médicos
Na última segunda-feira (6), a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão no Hospital Ceom, recolhendo prontuários médicos e documentos que passarão por análise técnica. A investigação apura as circunstâncias que levaram às complicações nos pacientes.
O hospital, em nota, assumiu as intercorrências com os 24 pacientes afetados, mas afirmou que a morte de Gilberto Pontes ocorreu em outra instituição e não há comprovação de vínculo com o procedimento realizado até o momento. A unidade destacou que realizou 643 procedimentos durante o mutirão, todos dentro dos critérios médicos estabelecidos.
Pacientes relatam impacto devastador na qualidade de vida
Entre os afetados está Genivaldo Batista de Souza, de 58 anos, que perdeu completamente a visão do olho direito e teve a do olho esquerdo prejudicada. "Era meu sonho melhorar a visão. Com a primeira aplicação, melhorou, mas quando fui fazer a segunda, perdi minha visão", desabafou. Morador sozinho, ele agora depende da ajuda da filha para tarefas domésticas e está sem renda por não conseguir trabalhar.
A aposentada Creusa Felissima Souza da Silva, de 79 anos, também perdeu a visão após o procedimento. Ativa e independente, ela cuidava do marido com Alzheimer e viajava sozinha, mas agora necessita de auxílio para a maioria das atividades diárias. "É difícil a pessoa ter aquela liberdade e hoje estar parada. Caí num poço muito fundo", lamentou.
Ação judicial envolve hospital, Sesab e Vigilância Sanitária
O advogado dos pacientes explicou que a ação movida no Tribunal de Justiça da Bahia inclui não apenas o Hospital Ceom, mas também a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) e a Vigilância Sanitária. "Todas elas têm sua cota parte de responsabilidade e vão responder solidariamente", argumentou.
A Sesab informou que 26 pacientes relataram intercorrências como ardência e hiperemia ocular após os procedimentos. Diante dos relatos, o órgão suspendeu imediatamente o encaminhamento de novos pacientes para a unidade.
O Ministério Público da Bahia também foi acionado sobre o caso, enquanto as famílias dos afetados buscam reparação pelos danos sofridos e pelo suposto descumprimento do dever de cuidado por parte das instituições envolvidas.



