Casal gay de Uberlândia supera desafios e realiza sonho de paternidade com fertilização in vitro
O sonho de ter filhos foi o primeiro passo para unir Cássio Freitas e Siomar Parreira, um casal que divide a vida entre Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e São Paulo. Ambos desejavam que os filhos tivessem a genética dos pais, e após considerar várias opções, escolheram a fertilização in vitro e a barriga de aluguel. No entanto, todo o processo, até o nascimento de Bento e Antônio, foi longo e exigiu muita paciência e determinação.
Amor ao primeiro 'match' em aplicativo de namoro
Em 2018, Cássio Freitas deslizou o indicador em um aplicativo de namoro e se deparou com Siomar Parreira, um empresário do ramo de eventos em Uberlândia, cuja bio dizia "quero ter filhos". O 'match' foi instantâneo, mas havia um detalhe: Cássio estava no Brasil a passeio, pois morava na Itália. Durante meses, os dois conversaram e compartilharam sonhos, mas o grande encontro só aconteceu em 2019, na Itália. Logo de cara, foram direto ao ponto: se gostavam, queriam construir uma família e ter dois meninos, batizados como 'Bento e Antônio', em homenagem aos avôs.
"Desde o início eu pensava: meu Deus do céu, isso tem que dar certo. Imagina essa pessoa sai do Brasil e não dá em nada. Começamos a conversar e, logo de cara, eu perguntei sobre filhos. Ele respondeu que também era o sonho dele. A partir daí, ficávamos brincando sobre nomes e falávamos que queríamos ter dois meninos", relembrou Cássio. O casamento aconteceu em 2021, cerca de três anos após o 'match', e após a lua de mel, o casal começou a pesquisar formas de trazer os tão sonhados filhos ao mundo.
Escolha pela fertilização in vitro e barriga de aluguel
O casal considerou a adoção, mas entenderam que seria um processo muito demorado, com casais de amigos esperando há mais de 12 anos. Além disso, queriam filhos com a própria genética. Descobriram que, para casais homoafetivos, existem dois tipos de reprodução assistida: inseminação artificial e fertilização in vitro (FIV). Optaram pela FIV, mais comum em casais formados por dois homens.
Segundo a ginecologista e obstetra Camila Toffoli, especializada em infertilidade e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), na fertilização in vitro, dois óvulos são unidos a dois espermatozoides, formando embriões que são transferidos para um útero de substituição, também conhecido como barriga solidária. "Foram três anos e quatro meses de processo. Casamos em novembro de 2021 e em dezembro começamos as entrevistas com as clínicas nos Estados Unidos. Escolhemos uma em Los Angeles, na Califórnia, a mesma que o Paulo Gustavo e o Thales Bretas utilizaram. Sempre tivemos claro que queríamos ser pais de crianças que tivessem material genético nosso. Sabíamos que seria um processo longo e custoso, mas, mesmo assim, era o que a gente queria", contou o casal.
Processo nos Estados Unidos e desafios enfrentados
A decisão de realizar o procedimento fora do Brasil foi motivada pelas normas do Conselho Federal de Medicina (CFM). Embora a técnica seja permitida no país, o útero de substituição só pode ser realizado por uma mulher com vínculo familiar de até quarto grau com o casal e sem fins lucrativos, com exceções que exigem autorização específica do CFM. Diante das regras, Cássio e Siomar optaram por uma clínica nos EUA, onde iniciaram o processo de forma independente, sem o apoio de empresas especializadas.
"Ninguém explica o passo a passo até os bebês chegarem aos seus braços. Fomos descobrindo ao longo do processo, com dúvidas do início ao fim", relataram. O objetivo era ter gêmeos, dois meninos, cada um com o material genético de um dos pais. Para isso, contrataram uma clínica responsável pela coleta e congelamento do sêmen, exames médicos e envio de documentos traduzidos para avaliação da equipe americana.
"Agendamos uma visita a Los Angeles para a coleta do sêmen. A mesma clínica acompanhou a doadora de óvulos, que passou por tratamento hormonal e pela coleta. Foram formados embriões, metade com o meu material genético e metade com o do Cássio. O trabalho da clínica termina com a transferência dos embriões para o útero da gestante de substituição", explicou Siomar.
Escolha da barriga de aluguel e nascimento prematuro
A escolha da barriga de aluguel levou tempo, com a conexão acontecendo na oitava tentativa. "Ela tinha o mesmo signo que eu, era muito ligada à família, falava disso o tempo todo e tinha um sorriso constante", recordaram. Uma chamada de vídeo marcou o início do processo, que começou em 2021 e seguiu até abril de 2025. Mesmo sem gestar os bebês, o casal viveu cada etapa da gravidez, montando o quarto, organizando o enxoval e participando de cursos.
"Criamos nossas próprias formas de estar grávidos. Queríamos sentir a presença e viver tudo como qualquer outra família", afirmou Cássio. A decisão por dois meninos veio após reflexões práticas, como uma cena em uma viagem à Disney de Paris, onde viram um pai com filhas pequenas em um banheiro masculino, visivelmente desconfortável. "Aquilo nos tocou. Sentimos que, para nós, dois meninos trariam mais segurança em algumas situações do dia a dia."
Os bebês nasceram prematuros, entre seis e sete meses de gestação. Bento enfrentou uma obstrução no canal umbilical, e o parto precisou ser antecipado. "Recebemos uma ligação dizendo que o nascimento seria no dia seguinte para aumentar as chances de sobrevivência." Naquele dia, Cássio e Siomar embarcaram para os EUA, no que afirmaram ser o pior voo de suas vidas. Apesar disso, o parto foi bem-sucedido e Bento e Antônio nasceram saudáveis. Após o nascimento, Bento ficou 15 dias internado. Um mês depois, o casal retornou ao Brasil com os filhos, que têm dupla cidadania, e toda a documentação foi emitida com o nome dos dois pais.
Sucesso nas redes sociais e impacto social
No início da jornada, Cássio e Siomar sentiram falta de espelhos, com poucos relatos de pais gays que tivessem percorrido o mesmo caminho. Diante do silêncio, decidiram contar a própria história, criando um perfil no Instagram para dividir a rotina da família. "A ideia é mostrar que existem muitas formas de construir uma família. Isso é importante porque recebemos uma série de mensagens de casais do Brasil inteiro, que se sentem representados, acolhidos e encorajados a também viver o sonho de formar uma família", contaram.
Com o tempo, perceberam que a escuta foi se tornando mais generosa, inclusive em espaços onde antes predominava a resistência. O batizado dos filhos, realizado em uma igreja a convite de um padre, se tornou um símbolo desse novo olhar. "Narrar nossa história é uma tentativa de mudar o mundo", afirmaram. Através das redes sociais, mensagens de outros casais de diferentes partes do Brasil afirmam que se reconhecem, se sentem representados e encontram coragem para também construírem uma família.



