Da periferia à medicina: aluna da Unicamp viraliza ao debater desigualdade
Aluna da Unicamp viraliza ao debater desigualdade na medicina

A estudante de medicina da Unicamp Analice Parizzi, de 23 anos, viralizou nas redes sociais ao publicar um vídeo em que questiona a desigualdade de oportunidades no acesso ao ensino superior. Ela usou a trend "Será que?" para rebater, com ironia, estereótipos sobre quem pode cursar medicina. Filha de uma ex-empregada doméstica e de um vigilante, a moradora da região do Ouro Verde, periferia de Campinas (SP), usou a própria trajetória para destacar que "a humanização que a gente tanto busca na medicina esteja onde ninguém quer enxergar".

"Talvez o problema nunca foi capacidade, e sim oportunidade", diz a estudante do 5º ano de medicina na Unicamp. Segundo Analice, à medida que se aprofunda, percebe que as visões de mundo colidem. "O seu passado é a sua história, é o que define o que você acredita. Então, com histórias tão diferentes, vindo de lugares tão diferentes, é difícil não se sentir só", fala.

Trajetória de superação

Analice nasceu em Nhandeara (SP) e se mudou para o bairro DIC 6, em Campinas, após seus pais perderem o emprego em uma fábrica de sapatos, em Birigui (SP). Para a família, a educação sempre foi vista como a única forma de "quebrar ciclos". Mas foram muitas barreiras desde cedo. Na escola pública, Analice conta que enfrentou bullying e dificuldades. Incentivada pelos pais, manteve-se resiliente. "Eles tinham muito medo que a gente sofresse o mesmo que eles", recorda a estudante.

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Abismo social

Apesar de sonhar com a medicina desde pequena, foi ao conseguir uma bolsa em um cursinho particular que Analice percebeu o abismo social. "Eu nunca tinha visto pessoas tão brancas. É uma lembrança que eu tenho muito forte e que também eu nunca tinha visto um ambiente climatizado e organizado cada milímetro para incentivar as pessoas a estudarem", fala. A aprovação para o ensino superior aconteceu por meio do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (Profis), programa da Unicamp para alunos de escolas públicas. Analice obteve a maior nota de sua escola no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e, após dois anos no programa, conquistou uma das dez vagas em medicina.

Entrar foi apenas uma etapa, e os desafios continuaram: ela chegava a pegar seis ônibus por dia e só conseguiu comprar seu primeiro tablet no quinto ano do curso. Além da barreira financeira, a estudante relata o isolamento e o impacto na saúde mental. "Eu ainda faço tratamento porque me afeta todos os dias, afeta qualquer pessoa que saiu de periferia", se emociona.

Combustível para a mudança

O vídeo com a trend "Será que?", idealizado com a mãe, foi uma forma de mostrar como políticas de reparação, como as cotas, transformam vidas. Hoje, Analice usa sua visibilidade para incentivar outros jovens de origem semelhante a acreditarem em seus sonhos. Segundo ela, o primeiro passo é entender que as dificuldades não são uma falha individual. "A partir do momento que você entende que a culpa não é sua, que é algo estrutural, você tem combustível para ir atrás da mudança", conclui.

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