França tem mais mortes que nascimentos em 2025, um marco desde a 2ª Guerra
França tem saldo negativo de nascimentos em 2025

Um marco histórico na demografia europeia foi atingido: a França registrou, em 2025, mais mortes do que nascimentos. Segundo dados oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee) nesta terça-feira (13), é a primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial que o país enfrenta um crescimento natural negativo.

Os números que definem uma nova realidade

Em 1º de janeiro de 2026, a população francesa era estimada em 69,1 milhões de habitantes, um aumento de apenas 0,25% em relação ao ano anterior. No entanto, esse pequeno crescimento se deve exclusivamente ao saldo migratório, que foi positivo em 176 mil pessoas. O saldo natural, que é a diferença entre nascimentos e óbitos, ficou negativo em 6 mil pessoas.

Os detalhes revelam uma tendência preocupante. Em 2025, nasceram aproximadamente 645 mil bebês, uma queda de 2,1% em relação a 2024. Este é o menor número registrado desde 1944, marcando o quarto ano consecutivo de declínio. Em contrapartida, o país contabilizou 651 mil mortes, um aumento de 1,5% frente ao ano anterior.

Causas de uma inversão demográfica

Dois fatores principais explicam este cenário inédito. De um lado, a persistente queda da natalidade. Do outro, o aumento no número de óbitos, impulsionado por uma forte epidemia de gripe no inverno e, de forma estrutural, pela chegada da numerosa geração do baby boom (nascidos entre o final dos anos 1940 e início dos 1960) às idades de maior risco.

A chefe da unidade de estudos demográficos e sociais do Insee, Sylvie Le Minez, destacou a velocidade da mudança. "O que surpreende é até que ponto, em poucos anos, o crescimento natural diminuiu devido à rápida queda dos nascimentos", afirmou ela em coletiva de imprensa.

Um indicador crucial atingiu seu nível mais baixo desde a Primeira Guerra Mundial: a taxa de fecundidade caiu para 1,56 filho por mulher em 2025. Este valor está muito abaixo da previsão de 1,8 utilizada pelo Conselho Consultivo de Pensões para calcular o financiamento das aposentadorias.

Consequências para o futuro da França

Esta mudança demográfica coloca fim a uma longa vantagem que a França mantinha sobre seus vizinhos europeus. Em 2023, último ano com dados comparáveis na UE, o país ainda ocupava o segundo lugar em taxa de fecundidade (1,65), atrás apenas da Bulgária (1,81). Agora, o país se vê imerso na mesma crise que pressiona as contas públicas em todo o continente.

As projeções são alarmantes. O Tribunal de Contas da França alertou no mês passado que a mudança demográfica deve elevar os gastos públicos aos níveis da era pandêmica nos próximos anos, enquanto a base de contribuintes se reduz. A expectativa de vida, que bateu recordes em 2025 (85,9 anos para mulheres e 80,3 para homens), e o aumento da proporção de pessoas com 65 anos ou mais (que já chega a 22%) agravam o desafio.

O economista Philippe Crevel, do think tank Cercle d'Epargne, prevê tensões. "Considerando a aposentadoria das grandes gerações nascidas na década de 1960, as tensões no mercado de trabalho e os problemas relacionados à força de trabalho provavelmente aumentarão rapidamente", afirmou.

A preocupação com a natalidade já mobiliza o governo francês. Em 2024, o presidente Emmanuel Macron defendeu um "reforço demográfico", com medidas para melhorar a licença parental e combater a infertilidade. Para os demógrafos, porém, as razões para a queda nos nascimentos são complexas e incluem dificuldades para encontrar emprego estável, acesso à moradia, incertezas climáticas e o desafio de conciliar vida profissional e familiar.