Rei Momo pós-Carnaval: a obesidade por trás do mito da alegria e fartura
Confetes espalhados pelo chão, maquiagem desfeita, fantasias cuidadosamente guardadas. A folia carnavalesca chega ao fim, mas uma pergunta crucial permanece: quem realmente sustenta o peso simbólico da festa quando as ruas esvaziam? Em uma reflexão profunda e necessária, o cirurgião bariátrico e pesquisador na área de obesidade Cid Pitombo desvenda as camadas históricas e sociais por trás da figura do Rei Momo, questionando a romantização da obesidade que por décadas permeou o imaginário coletivo.
Das origens mitológicas ao trono carnavalesco
O nome Momo tem suas raízes na mitologia grega, onde era conhecido como um deus repleto de defeitos e críticas. Durante as festividades em honra a Dionísio, ele era frequentemente retratado como uma figura obesa, simbolizando não apenas a fartura e a alegria, mas também os excessos e a chacota. Essa representação ganhou novos significados ao longo dos séculos, especialmente na Idade Média, quando a obesidade era vista como um sinal de status e abundância em meio à miséria generalizada.
As narrativas sobre Momo viajaram pela Europa, encontrando acolhida em contos populares espanhóis, até que, na década de 1930, jornalistas brasileiros decidiram incorporá-lo ao Carnaval. Desde então, a tradição se estabeleceu: o Rei Momo é recebido com honrarias, recebe a chave da cidade como um gesto simbólico de abertura para a folia e assume o papel de monarca da maior festa popular do planeta.
A dura realidade por trás do sorriso festivo
Por muitos anos, a imagem do obeso engraçado e feliz foi amplamente divulgada, tanto no Carnaval quanto no cinema e na televisão. No entanto, essa representação escondia uma realidade estatisticamente falsa e perigosa. Enquanto nos desfiles e blocos os Reis Momos eram celebrados com entusiasmo, fora do período festivo eles frequentemente enfrentavam o estigma e a negligência em relação aos seus problemas de saúde.
A obesidade, especialmente em sua forma mórbida, é uma doença complexa e multifatorial, influenciada por falhas metabólicas, genéticas e fisiológicas que dificultam a manutenção de um peso saudável. O cirurgião Cid Pitombo enfatiza que, embora a aceitação do corpo seja um direito individual inquestionável, é fundamental distinguir entre autoestima e os riscos concretos associados à obesidade como condição clínica.
Os riscos à saúde e a mudança de paradigma
Estar significativamente acima do peso ideal, como era comum entre os antigos Reis Momos, aumenta exponencialmente a probabilidade de desenvolver uma série de doenças graves. Entre elas, destacam-se:
- Diabetes tipo 2
- Problemas cardiovasculares, como hipertensão e infartos
- Complicações osteoarticulares
- Diversos tipos de câncer
- Doenças crônicas do fígado e dos rins
Além disso, indivíduos com obesidade mórbida frequentemente enfrentam dificuldades de locomoção, desafios relacionados à higiene pessoal, preconceito social e barreiras para a prática de atividades físicas. Pitombo relata ter operado um antigo e famoso Rei Momo, que, após perder 70 quilos, hoje desfruta de uma saúde robusta, felicidade genuína e muita energia para sambar.
Do trágico ao consciente: a evolução do Carnaval
Tragédias, como infartos fatais envolvendo Reis Momos, serviram como um alerta sombrio para a sociedade. Esses eventos forçaram uma reflexão coletiva sobre o que estava sendo glorificado por trás dos sorrisos e da alegria aparente. O Carnaval, aos poucos, começou a repensar sua relação com a obesidade, reconhecendo que a propagação de uma imagem que normalizava uma doença grave precisava ser revista.
Atualmente, a passarela do samba não exige mais que portadores de obesidade ocupem o trono simbólico. Em vez disso, busca-se uma figura de grande porte, mas saudável, festiva e com disposição para sambar durante todos os dias da folia, resgatando assim o espírito do Momo grego sem associá-lo a riscos à saúde. A mensagem é clara: o humor, a alegria e a irreverência do Carnaval não dependem da obesidade em seu enredo. A festa já carrega o peso suficiente por ser a maior celebração popular do mundo real, e sua evolução reflete um amadurecimento em direção a uma consciência mais ampla sobre saúde e bem-estar.



