K-drama da Netflix reacende debate sobre Transtorno Dissociativo de Identidade
K-drama da Netflix reacende debate sobre TDI

K-drama da Netflix reacende debate sobre Transtorno Dissociativo de Identidade

A série sul-coreana O Amor Pode Ser Traduzido?, disponível na Netflix, tem gerado intensas discussões nas redes sociais sobre saúde mental, especialmente em relação ao Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI). Enquanto fãs especulam sobre o comportamento da protagonista, especialistas em psicologia e psiquiatria são consultados para esclarecer até que ponto a ficção se aproxima da realidade clínica desta condição rara.

Sucesso global e questionamentos

Lançado em 16 de janeiro de 2026, o drama romântico estrelado por Kim Seon-ho e Mu-hee alcançou rapidamente o topo do ranking global da Netflix, permanecendo duas semanas entre os dez títulos mais vistos em língua não-inglesa e acumulando aproximadamente nove milhões de visualizações. A trama acompanha a atriz Mu-hee, que encontra refúgio emocional em Do Ra Mi, personagem que interpreta em um filme dentro da própria história, levando parte do público a associar sua fragmentação emocional ao TDI.

Especialistas diferenciam ficção e realidade clínica

Segundo o médico Maurício Okamura, coordenador de Saúde Mental da Rede Total Care, embora o transtorno seja frequentemente mencionado nas discussões sobre a série, a narrativa não representa um retrato clínico preciso do TDI. "Na série, não há apagões de memória nem alternância involuntária entre estados de identidade, que são critérios centrais do transtorno", explica Okamura. "Do Ra Mi funciona como um recurso simbólico consciente, ligado ao enfrentamento de rejeição e dor psíquica, diferentemente da realidade clínica que costuma ser silenciosa e marcada por lapsos temporais."

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O Transtorno Dissociativo de Identidade é uma condição complexa que afeta entre 1% e 2% da população mundial, caracterizada pela presença de duas ou mais identidades distintas, acompanhadas de lacunas de memória e prejuízo significativo no funcionamento emocional e social. Está geralmente associado a traumas graves e repetidos na infância, como abuso, violência ou negligência.

Fragmentação emocional como mecanismo de proteção

Marília Batarra, coordenadora das Linhas de Cuidado em Saúde Mental da Amil, explica que experiências traumáticas precoces podem levar à fragmentação emocional, um processo no qual diferentes aspectos da personalidade se organizam como forma de proteção. "Isso não significa automaticamente o desenvolvimento de um transtorno mental, mas evidencia o impacto do ambiente na organização emocional", afirma Batarra. "No k-drama, essa dinâmica aparece de forma simbólica, com Do Ra Mi funcionando como metáfora de tentativa de integração de partes fragmentadas da protagonista."

Estudos internacionais, incluindo pesquisa publicada no Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, reforçam que eventos potencialmente traumáticos na infância influenciam diretamente o desenvolvimento emocional ao longo da vida, afetando vínculos, regulação emocional e respostas ao estresse.

Riscos de confundir ficção com diagnóstico

Os especialistas alertam para o principal risco envolvido nessas discussões: confundir metáforas ficcionais com diagnósticos clínicos. "Personagens ajudam a refletir e gerar empatia, mas diagnóstico e tratamento devem sempre ser realizados por profissionais qualificados", reforça Marília Batarra. A busca por autodiagnóstico baseado em representações midiáticas pode levar a interpretações equivocadas e atrasar o acesso a cuidados adequados.

Impacto positivo no debate público

Apesar das ressalvas, os profissionais de saúde mental reconhecem o valor educativo de produções como O Amor Pode Ser Traduzido?. A série cumpre um papel relevante ao ampliar o debate público sobre saúde mental, estimular o vocabulário emocional e incentivar a busca por informação qualificada e cuidado especializado. Ao trazer temas psicológicos complexos para o entretenimento mainstream, essas produções contribuem para reduzir estigmas e promover maior conscientização sobre questões de saúde mental na sociedade.

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