Vírus de camarões e crustáceos infecta humanos pela primeira vez, revela estudo na Nature
Um estudo publicado na prestigiada revista científica Nature confirmou pela primeira vez a transmissão de um vírus marinho para seres humanos. O Covert Mortality Nodavirus (CMNV), anteriormente conhecido por infectar apenas animais aquáticos, foi identificado em 70 pacientes chineses com inflamação ocular.
Publicações virais nas redes sociais
Publicações que viralizaram no X (antigo Twitter) a partir de 8 de abril acumularam mais de 4 milhões de visualizações com a informação sobre o primeiro caso de infecção humana por vírus marinho. As postagens destacavam que o vírus, encontrado em camarões e peixes, estava associado a inflamação ocular e possível perda de visão.
Nas seções de comentários, usuários expressaram dúvidas sobre a existência do vírus ou fizeram perguntas ao assistente de inteligência artificial da plataforma. Algumas mensagens questionavam: "Desde quando isso é real? O que é esse vírus?" enquanto outras faziam alegações infundadas sobre vacinas.
O que diz o estudo científico
A pesquisa publicada em 26 de março na Nature tem o título "Uma doença ocular emergente em humanos está associada a uma infecção zoonótica por vírus aquático" e descreve os primeiros casos documentados de infecção humana pelo CMNV.
O estudo revela que:
- O CMNV pode infectar mais de 20 espécies aquáticas, incluindo equinodermos (como estrelas-do-mar), crustáceos (camarão, lagosta, siri) e peixes ósseos
- Os pesquisadores confirmaram a infecção em tecidos oculares de 70 pacientes com uveíte anterior viral hipertensiva
- Todos os pacientes trabalhavam no processamento ou consumiram carne crua desses animais marinhos
Impacto na saúde humana
Nenhum dos 70 pacientes infectados morreu ou ficou cego, mas aproximadamente um terço necessitou de tratamento medicamentoso de longo prazo. A uveíte é uma inflamação ocular que atinge a úvea, camada da córnea que, sem tratamento adequado, pode levar a complicações como catarata, glaucoma e edemas de retina, com risco de cegueira.
O professor Jansen de Araújo, microbiologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), explicou ao Fato ou Fake que a maioria dos casos analisados envolvia pessoas com trabalho diretamente ligado à maricultura e manipulação de pescados.
"Muitos relataram falta de proteção adequada, como luvas ou proteção ocular durante o trabalho. Os autores demonstram que poderia haver vias de transmissão direta por manipulação, através de lesões cutâneas ou fluidos aquáticos contaminados em contato com os olhos", afirmou Araújo.
Risco epidemiológico e contexto ambiental
O pesquisador ressalta que o estudo não classifica a infecção como um risco epidemiológico significativo. "Alguns pacientes tinham a doença ocular há 25 anos. Isso não caracteriza um surto epidêmico na região, nem motivo para pânico na população. O consumo de pescados continua com risco baixíssimo e seguro", garantiu.
Araújo explicou que ainda não se sabe exatamente o que permitiu a transmissão bem-sucedida do vírus para humanos neste caso, mas destacou que a capacidade de mutação de vírus marinhos é bem documentada.
"A plasticidade genômica é característica de muitos vírus de RNA de ambientes aquáticos, que têm taxas de mutação elevadas, permitindo que utilizem receptores celulares conservados em vertebrados", detalhou o microbiologista.
Fatores ambientais e mudanças climáticas
Em sua análise, o pesquisador avaliou que mudanças climáticas e ambientais podem favorecer transformações no cenário de transmissão viral. "O ambiente marinho é um dos que mais sofre com as alterações climáticas globais", observou Araújo.
Ele explicou que peixes com estresse metabólico pelo calor têm sistemas imunes mais fracos, replicando cargas virais maiores. Além disso, a migração de espécies tropicais para novos habitats tem ocorrido frequentemente, criando novas oportunidades de transmissão entre espécies que antes não tinham contato.
"Por fim, a interação humana em busca de novos recursos ou em novas regiões aumenta o contato com reservatórios virais antes desconhecidos", concluiu o especialista, enfatizando a importância do monitoramento contínuo dessas interações entre ecossistemas marinhos e saúde humana.



