Especialista em doenças infecciosas lança alerta urgente sobre futuras pandemias
Em um momento em que o mundo parece ter voltado à normalidade pós-covid-19, um infectologista brasileiro levanta a voz para um alerta que muitos preferem ignorar: a próxima pandemia não é uma questão de "se", mas de "quando". Eduardo Toffoli Pandini, médico-historiador que acaba de lançar o primeiro volume de uma trilogia sobre a história das doenças infecciosas, afirma categoricamente que a humanidade está se preparando mal para os desafios sanitários do futuro.
Lições do passado sendo esquecidas
Em entrevista exclusiva, Pandini expressa preocupação com o que chama de "amnésia coletiva" em relação às lições aprendidas durante a crise do coronavírus. "Infelizmente, a sociedade parece ter esquecido a maior parte das lições da pandemia de covid", lamenta o especialista. Ele critica especialmente o desmantelamento de sistemas de vigilância epidemiológica em países como os Estados Unidos e a crescente politização de medidas preventivas básicas.
O médico destaca que a oposição à vacinação e ao uso de máscaras se transformou em plataforma política atraente em muitos lugares, alimentada por teorias conspiratórias e dificuldades de comunicação científica. "Como lidar com notícias falsas em saúde de forma efetiva é uma lição que ainda precisamos aprender", afirma Pandini, ressaltando que a desinformação representa um dos maiores obstáculos para a preparação sanitária global.
Trilogia histórica com olhos no futuro
A obra "De Miasmas a Vacinas", primeiro volume da trilogia independente de Pandini, traça um panorama abrangente da relação entre humanos e patógenos desde antes do surgimento do Homo sapiens. O livro percorre teorias médicas antigas, epidemias históricas e chega ao século XIX marcado por pestes e conflitos.
"Não se trata apenas de contar histórias do passado, mas de entender como chegamos até aqui e o que podemos fazer para prevenir desastres futuros", explica o autor. A narrativa mostra como as doenças infecciosas moldaram civilizações, determinaram o curso de guerras e continuam sendo uma força poderosa na história humana.
Gripe aviária: a ameaça mais iminente
Quando questionado sobre qual patógeno mais o preocupa atualmente, Pandini não hesita: o vírus influenza A H5N1, causador da gripe aviária. O especialista alerta para a grande mortandade que o vírus vem causando entre aves selvagens e de criação, além de já ter demonstrado capacidade de transmissão para mamíferos.
"A cada vez que ele circula entre animais de criação, existe o risco de que adquira mutações que o tornem capaz de ser transmitido também entre humanos", explica o infectologista. Ele critica a falta de esforços coordenados para rastrear e impedir a disseminação do vírus entre animais, especialmente nos Estados Unidos, onde os surtos têm sido mais frequentes.
Doenças evitáveis em retorno preocupante
Além da ameaça de novos patógenos, Pandini destaca o risco crescente de retorno de doenças que já considerávamos controladas. O sarampo e a poliomielite aparecem como suas principais preocupações nesse cenário.
- O sarampo preocupa pela alta mortalidade e facilidade de disseminação
- A poliomielite representa risco de sequelas graves como paralisia permanente
- A hesitação vacinal tem crescido em diversos países, incluindo o Brasil
- Comunidades com baixa cobertura vacinal tornam-se focos potenciais de surtos
História como guia para o futuro
Pandini destaca que a Gripe Espanhola de 1918, que matou mais pessoas do que a Primeira e Segunda Guerra Mundial juntas, serve como exemplo emblemático de como as sociedades tendem a esquecer tragédias sanitárias. "É curioso como é tão pouco lembrada nos dias de hoje", observa o médico, sugerindo que o trauma coletivo e a coincidência com a Primeira Guerra contribuíram para esse "apagamento" histórico.
O infectologista finaliza com um apelo por maior investimento em vigilância epidemiológica, educação científica da população e preparação institucional. "Pandemias ocorrem periodicamente na história da humanidade, e hoje estamos mais expostos do que nunca", conclui, lembrando que a facilidade de transporte global e a expansão da civilização para novas áreas criam condições ideais para a disseminação de patógenos.
