Médico brasileiro conquista prêmio mundial por avanço no diagnóstico do Alzheimer
O amor pela avó que perdeu suas próprias lembranças se transformou em uma trajetória científica que levou o médico e pesquisador brasileiro Wagner Scheeren Brum, de apenas 28 anos, a ser reconhecido internacionalmente. Em Manchester, no Reino Unido, ele recebeu o prestigioso One to Watch Award 2026, concedido pela Alzheimer's Association, principal organização mundial dedicada ao fomento da pesquisa sobre a doença neurodegenerativa.
Reconhecimento de uma nova geração de cientistas
A distinção é destinada a jovens cientistas considerados a próxima geração de líderes em neurociência. A premiação ocorreu em fevereiro durante a AAIC Neuroscience Next, conferência que reúne estudantes, pós-doutorandos e pesquisadores em início de carreira de diversos países. Brum, que ainda nem defendeu seu doutorado em Bioquímica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi escolhido por seu papel central no desenvolvimento de um novo modelo de interpretação de exames de sangue para Alzheimer.
"Receber esse prêmio antes mesmo da defesa do doutorado é uma grande honra", comenta o pesquisador. "Mostra que pesquisadores brasileiros podem contribuir ativamente para avanços científicos que têm impacto global".
Do laboratório gaúcho ao reconhecimento mundial
Formado em Medicina pela UFRGS em 2025, Wagner iniciou sua trajetória científica ainda na graduação, participando de um programa que permite cursar a faculdade e o doutorado simultaneamente. Foi nesse contexto que começou a investigar biomarcadores para Alzheimer, área que o acompanha até hoje. O interesse, no entanto, surgiu antes da universidade, e de dentro de sua própria família:
"Ver a dona Herta, minha avó materna, desenvolver Alzheimer, perder suas memórias, e como isso afetou a mim e à minha família me motivou ainda mais para seguir nessa área", revela.
O pesquisador já integra colaborações internacionais com grupos da Suécia e do Canadá, e publicou mais de 60 artigos em periódicos renomados como JAMA, Lancet Neurology, Nature Medicine e Nature Aging.
A revolução do exame de sangue p-tau217
Foi um avanço específico que projetou seu nome para o cenário global. A pesquisa de Wagner se concentra na interpretação clínica do exame de sangue p‑tau217, considerado uma das principais apostas para tornar o diagnóstico da doença de Alzheimer mais acessível e rápido.
"O exame de sangue p-tau217 mede no sangue uma forma específica da proteína tau que está diretamente relacionada às alterações cerebrais típicas da doença de Alzheimer", explica. "Um exame de sangue tem o potencial de tornar esse tipo de avaliação muito mais simples, acessível e escalável dentro da medicina".
Até recentemente, avaliar essas alterações só era possível por exames caros, como PET (exame de imagem médica), ou invasivos, como punção lombar. No Brasil, o diagnóstico segue majoritariamente clínico. Com o p-tau217, abre-se a possibilidade de confirmar ou descartar a patologia de forma menos custosa e mais rápida.
O inovador modelo de "dois passos"
O exame de sangue p‑tau217 trouxe uma proposta promissora, mas apresentou um desafio nos primeiros estudos. Diferentemente do líquor (fluido biológico "limpo") e do PET, que apresentam resultados com separações claras entre "positivo" e "negativo", os valores no sangue não se distribuíam de forma tão binária.
Wagner esclarece que "classificar pacientes entre positivo e negativo, como fazíamos com líquor e PET, não funcionaria". Nos dados iniciais, havia muitos exames com valores intermediários, difíceis de interpretar, enquanto existia um grande grupo com resultados claramente baixos ou altos.
Para lidar com essa realidade, Wagner e colaboradores propuseram o modelo de "dois passos", seguindo uma lógica já usada em outras áreas da medicina: aproveitar o exame para resolver imediatamente os casos mais claros e reservar testes adicionais apenas para situações incertas.
Segundo o pesquisador, o modelo "aumenta a segurança diagnóstica porque evita decisões baseadas em resultados ambíguos". Ele reconhece a existência da zona intermediária e orienta que, nesses casos, é necessário recorrer a exames mais complexos. Contudo, para uma grande parte dos pacientes, o diagnóstico poderia ser feito somente com o exame de sangue, sem PET ou punção lombar.
Colaboração internacional e impacto regulatório
Os pesquisadores precisaram demonstrar que o teste funciona de forma consistente em diferentes populações e laboratórios, algo só possível graças à colaboração entre Brasil, Suécia e Canadá. "Essa diversidade é essencial para garantir que um exame diagnóstico funcione de forma confiável em contextos clínicos distintos", destaca Wagner.
A proposta serviu de base para a aprovação regulatória do exame p‑tau217 pelo FDA (Food and Drug Administration) em 2025. "Ver uma ideia simples bem implementada contribuir para decisões regulatórias que podem impactar a prática clínica mundial é extremamente significativo", comenta.
O motivo do reconhecimento e o futuro do diagnóstico
A Alzheimer's Association destacou o impacto prático do trabalho. Wagner acredita que foi justamente a aplicação clínica das pesquisas que chamou a atenção: "Fica sempre claro que a motivação principal é melhorar a interpretação clínica dos biomarcadores para Alzheimer de modo que possam ser incorporados de forma segura".
Ele também defende que o Brasil avance na preparação para incorporar o exame à rotina médica. "Capacitar neurologistas e geriatras a solicitar e interpretar o exame é fundamental", afirma.
Se amplamente implementado, o exame de sangue p‑tau217 e o modelo de interpretação desenvolvido por Wagner e colaboradores prometem transformar o diagnóstico de Alzheimer: "O principal impacto é permitir diagnósticos mais precisos e mais acessíveis", resume. Com a chegada de tratamentos que exigem confirmação biomarcadora, a inovação pode garantir acesso mais justo e decisões clínicas mais seguras para milhões de pacientes em todo o mundo.



