Estudo internacional com USP revela frequência menor de variantes raras de câncer de cabeça e pescoço
Estudo com USP mostra câncer de cabeça e pescoço menos raro

Estudo internacional com participação da USP corrige estimativas históricas sobre câncer de cabeça e pescoço

Uma pesquisa internacional que contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto revelou dados importantes sobre o carcinoma espinocelular, um dos tipos mais agressivos de câncer que atinge a região da cabeça e pescoço. O estudo, publicado na renomada revista científica Annals of Diagnostic Pathology, analisou informações de mais de 1.400 pacientes e chegou a conclusões que corrigem estimativas utilizadas pela medicina há décadas.

Frequência das variantes raras é menor do que se acreditava

A pesquisa demonstrou que as variantes mais raras e graves do carcinoma espinocelular aparecem em menos de 5% dos casos, uma porcentagem significativamente inferior aos 15% que eram considerados como referência médica há anos. Essa correção estatística tem implicações diretas na prática clínica, permitindo que os profissionais de saúde avaliem com maior precisão o risco individual de cada paciente.

"Quando detectamos essa variante, é fundamental fazer um diagnóstico correto. Embora seja o mesmo tipo de tumor do convencional, apresenta uma morfologia diferente. Esse diagnóstico preciso auxilia o oncologista clínico a indicar o tratamento mais adequado para aquela variante específica", explica o pesquisador Fernando Chahud, da USP de Ribeirão Preto.

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Diferenças morfológicas determinam agressividade do tumor

O carcinoma espinocelular convencional, que representa a maioria dos casos, apresenta células rosadas e arredondadas quando observadas sob o microscópio. Já as variantes raras, como a chamada fusiforme, possuem células mais claras e com formato alongado, características que indicam maior capacidade de disseminação rápida da doença.

Essa distinção visual é crucial porque determina a agressividade do tumor e, consequentemente, a abordagem terapêutica necessária. A identificação precisa dessas características permite que as equipes médicas adotem posturas mais firmes desde o início do tratamento, quando necessário.

Realidade brasileira: associação com HPV é menor que no Hemisfério Norte

Um dos aspectos mais relevantes do estudo diz respeito à diferença epidemiológica entre o Brasil e países do Hemisfério Norte. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos o vírus HPV está presente em aproximadamente 70% dos casos de câncer de garganta, no Brasil essa associação gira em torno de apenas 25%.

"É bem conhecido na literatura médica que o câncer associado ao HPV tem melhor prognóstico. Como na população brasileira esses valores são baixos, o prognóstico não acompanha aquele observado nas populações norte-americanas e europeias", detalha Jorge Léon, chefe da pesquisa e pesquisador da USP.

Essa distinção é clinicamente significativa porque os tumores causados pelo HPV costumam responder melhor aos tratamentos de radioterapia e quimioterapia. No cenário brasileiro, onde a maioria dos casos não está ligada ao vírus, o prognóstico tende a ser mais severo, aproximando-se do comportamento do câncer oral clássico.

Personalização do tratamento e impacto na prática clínica

Para os médicos que atuam diretamente no atendimento aos pacientes, como a oncologista Graziela Vieira Cavalcanti, do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, essas descobertas permitem "personalizar" a luta contra a doença. Saber exatamente com qual variante se está lidando define parâmetros importantes, como o tamanho da margem de segurança em procedimentos cirúrgicos.

"A diferença nos tipos das variantes interfere no tratamento, principalmente se o paciente vai mudar o protocolo de quimioterapia e radioterapia. Até mesmo na cirurgia, às vezes utilizamos margens um pouco mais amplas para garantir que não haverá reincidência do tumor", afirma a médica.

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O estudo representa um avanço significativo no entendimento do carcinoma espinocelular e oferece bases científicas mais sólidas para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas adaptadas à realidade epidemiológica brasileira. Com essas informações, os profissionais de saúde podem evitar tratamentos excessivamente agressivos quando não são necessários, melhorando a qualidade de vida dos pacientes durante e após o tratamento.