Homem sobrevive a picada de jararacuçu após erro no tratamento com soro antiofídico
Um servidor público de 46 anos passou por um mês de internação hospitalar após ser picado por uma cobra jararacuçu (Bothrops jararacussu) durante uma pescaria em Eldorado, interior de São Paulo. Leandro Marques do Nascimento relatou ao g1 que ficou "entre a vida e a morte" depois de receber inicialmente o soro antiofídico para uma espécie diferente da que o atacou.
O acidente durante a pescaria
No dia 7 de março, enquanto pescava com a esposa no Parque Salto da Usina, Leandro sentiu uma forte queimação na perna. Ao olhar para baixo, encontrou sangue e uma marca que parecia ser de picada de cobra. "Uma picada de cobra e um soro errado que quase custou a minha vida", destacou o homem, que conseguiu fotografar o animal antes de ser levado pela esposa ao pronto-socorro da Santa Casa de Eldorado.
Diagnóstico equivocado e tratamento inicial
No primeiro atendimento, o médico fez perguntas sobre características do animal e, baseado nas respostas, diagnosticou como picada de cascavel. Foram aplicadas dez doses de soro anticrotálico específico para neutralizar o veneno dessa espécie. Entretanto, oito horas depois, os sintomas continuavam piorando significativamente, com inchaço se espalhando por toda a perna, urina escurecida e pressão arterial elevada.
Leandro foi então transferido para o Hospital Regional Dr. Leopoldo Bevilacqua, em Pariquera-Açu. "Já estava entre a vida e a morte", lamentou o paciente sobre sua condição na chegada à segunda unidade hospitalar.
Mais erros no tratamento
No segundo hospital, uma funcionária informou erroneamente que Leandro havia recebido soro para jararacuçu no primeiro atendimento. Baseado nessa informação, a equipe médica aplicou duas doses do soro correto, o que trouxe alguma melhora temporária. Porém, no dia seguinte, outro médico revisou o prontuário, viu as dez doses iniciais para cascavel e receitou mais dez soros antiofídicos para neutralizar o veneno da espécie errada.
Descoberta da verdade com tecnologia
Com os sintomas piorando novamente, Leandro pediu que sua irmã enviasse as fotos da cobra para o Instituto Butantan no dia 9 de março. A resposta foi alarmante: "É urgente informar à equipe hospitalar que houve uma divergência na identificação do animal: ele recebeu o soro anticrotálico (cascavel), mas o acidente foi causado por uma jararacuçu".
O paciente também utilizou duas inteligências artificiais (ChatGPT e Gemini) que confirmaram a identificação como jararacuçu. "Penso eu que está evidente que o médico que me atendeu no momento não estava preparado para esse tipo de ocorrência", destacou Leandro sobre o caso.
Intervenção policial e sequelas
Mesmo após a confirmação do Instituto Butantan, o médico se recusou a seguir as orientações. Somente após a esposa acionar a Polícia Militar no dia 14 de março, Leandro conseguiu ser encaminhado para uma cirurgia para aliviar a pressão na perna.
O servidor recebeu alta hospitalar na segunda-feira, 6 de abril, mas enfrenta sequelas significativas. "Fiquei com sequelas. Não estou conseguindo mexer a perna, estou com a perna toda dolorida ainda, não sei se eu consigo voltar a andar", finalizou ele, classificando o ocorrido como um caso de negligência médica.
Posicionamento dos hospitais
O Hospital Regional Dr. Leopoldo Bevilacqua emitiu nota afirmando que, por questões de sigilo médico e privacidade dos pacientes, não fornece informações sobre casos concretos. A instituição reforçou que todos os pacientes são atendidos conforme protocolos assistenciais rigorosamente seguidos na unidade, que é referência no Vale do Ribeira e Litoral Sul.
Já a Santa Casa de Eldorado não foi localizada pelo g1 até a última atualização da reportagem para se pronunciar sobre o caso.



