Por que o consumo de energéticos pode ser uma 'bomba' para o coração?
Casos recentes e estudos científicos evidenciam que as bebidas energéticas vão muito além de um simples "gás" no dia a dia, podendo afetar severamente a saúde cardiovascular. Muitas pessoas recorrem a esses produtos para enfrentar plantões exaustivos, melhorar o rendimento em treinos ou até como acompanhamento em baladas, frequentemente misturados com álcool. No entanto, médicos e pesquisadores emitem alertas contundentes sobre os perigos associados a essa popularidade.
Casos alarmantes em 2025
Em fevereiro de 2025, uma jovem de 20 anos foi internada em uma unidade de terapia intensiva após sofrer convulsões e múltiplas paradas cardíacas. No mês seguinte, uma mulher de 28 anos faleceu devido a um infarto súbito. Ambos os casos tinham em comum a suspeita de consumo excessivo de energéticos antes da prática de exercícios físicos, sem histórico prévio de doenças cardíacas. Esses incidentes destacam os riscos potenciais dessas bebidas.
Energia "emprestada" e sobrecarga orgânica
A lógica por trás dos energéticos é oferecer um estado artificial de alerta, combinando doses elevadas de cafeína com outras substâncias estimulantes, como taurina e guaraná, além de grandes quantidades de açúcar. Isso resulta em uma sensação rápida de disposição, mas também em uma sobrecarga significativa no organismo. A médica Cynthia Karla Magalhães, do Instituto Nacional de Cardiologia, explicou que, a curto prazo, isso pode gerar picos hipertensivos, desidratação e até perda de consciência. A longo prazo, o uso contínuo pode comprometer a função cardíaca, alterar os padrões de sono e aumentar o risco de doenças cardiovasculares.
Dosagem e limites seguros
O ponto central reside na dosagem. A Sociedade Brasileira de Cardiologia considera seguro, para a maioria das pessoas, o consumo de até 500 mg de cafeína ao longo do dia, equivalente a cerca de cinco xícaras de café. Contudo, uma única lata de energético pode concentrar até 250 mg de cafeína, frequentemente associada a outros estimulantes que potencializam seus efeitos. Na prática, isso significa que o limite seguro pode ser ultrapassado facilmente, especialmente com consumo repetido ao longo do dia ou em associação com suplementos pré-treino.
Estudo canadense revela efeitos adversos
Um estudo conduzido pela University of Waterloo, no Canadá, ajuda a dimensionar o problema. Entre 2.055 jovens entrevistados, mais da metade (55,4%) relatou algum efeito adverso após consumir energéticos. Entre os sintomas mais comuns, quase um quarto (24,7%) mencionou batimentos cardíacos acelerados ou irregulares, quadro conhecido como arritmia. Outros relataram dificuldade para dormir (24,1%) e dor de cabeça (18,3%). Em indivíduos com predisposição a problemas cardíacos, essas alterações no ritmo do coração podem ter consequências mais graves, e muitos desconhecem essa vulnerabilidade.
Mistura perigosa com álcool
Se o consumo isolado já é preocupante, a combinação com álcool amplia consideravelmente os riscos. "O álcool tem efeito depressor no sistema nervoso, enquanto o energético é estimulante. Isso mascara a percepção de embriaguez", esclarece Magalhães. Na prática, a pessoa se sente menos intoxicada do que realmente está, o que pode levar ao consumo excessivo de álcool. O resultado é uma dupla sobrecarga: maior risco de intoxicação alcoólica e aumento da probabilidade de eventos cardíacos, como arritmias e até infarto.
Sinais de alerta do organismo
Nem sempre o organismo reage de forma silenciosa ao consumo de energéticos. Em alguns casos, ele emite sinais claros de que algo não vai bem. Entre os sintomas mais comuns estão:
- Palpitações (sensação de coração acelerado ou "descompassado")
- Tontura
- Dor de cabeça
- Tremores
- Dificuldade para dormir
- Sensação de ansiedade ou agitação excessiva
Em situações mais intensas, podem surgir picos de pressão arterial, desidratação e até episódios de desmaio. Esses sinais tendem a aparecer principalmente quando há consumo em doses elevadas, associação com outras fontes de cafeína, uso antes de exercícios intensos ou combinação com álcool. Diante dessas respostas do corpo, a recomendação é interromper imediatamente o consumo e buscar avaliação médica.



