Cirurgia de Ross: 30 anos de uma revolução na cardiologia brasileira
Há mais de três décadas, a medicina brasileira testemunhou um marco histórico em Curitiba: a realização da primeira cirurgia de Ross no país, um procedimento cirúrgico pioneiro que reduziu significativamente os riscos de complicações em pacientes com problemas cardíacos. Esta técnica inovadora, replicada até os dias atuais e disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), entrou definitivamente para os anais da medicina nacional, oferecendo uma alternativa superior aos métodos tradicionais de correção valvar.
Como funciona a técnica revolucionária
Em 17 de abril de 1995, pela primeira vez no Brasil, um paciente foi submetido à cirurgia de Ross, técnica desenvolvida pelo britânico Donald Ross em 1967. O procedimento consiste na substituição da válvula aórtica adoecida – responsável por bombear sangue oxigenado do coração para o restante do corpo – pela válvula pulmonar do próprio paciente, que normalmente envia sangue pobre em oxigênio para os pulmões.
No lugar da válvula pulmonar removida, é implantada uma estrutura cedida por um banco de doadores humanos. Considerada de alta complexidade, a cirurgia é indicada para pacientes com doenças cardíacas – sejam genéticas ou adquiridas ao longo da vida – que afetem especificamente a válvula aórtica.
Vantagens sobre métodos tradicionais
O grande diferencial da cirurgia de Ross está na utilização de uma estrutura saudável do próprio coração do paciente, superando assim as limitações dos métodos mais comuns para correção de problemas valvares. "Nenhuma das duas é ideal", afirma o cirurgião cardíaco paranaense Francisco Diniz Affonso da Costa, responsável por trazer a técnica do Reino Unido para o Brasil.
Ele explica que as válvulas de animais – como bois e porcos – deterioram-se rapidamente, exigindo nova operação após alguns anos. Já as válvulas mecânicas, fabricadas com ligas metálicas especiais, estão associadas à formação de coágulos, necessitando do uso contínuo de anticoagulantes para combater o risco de acidentes vasculares cerebrais (AVC).
Três décadas de resultados comprovados
Em três décadas de aplicação no Brasil, Francisco Diniz Affonso da Costa já realizou mais de 600 cirurgias utilizando a técnica de Ross. O primeiro paciente brasileiro a se beneficiar do procedimento foi Ademir Ribeiro, de Ivaiporã (PR), hoje com 61 anos. "Descobri [a doença] quando começou a dar muita falta de ar, não podia mais trabalhar, andar, fazer força", relata o aposentado, que não teve mais complicações cardíacas desde a operação.
Os pacientes submetidos à cirurgia de Ross seguem sob rigoroso acompanhamento médico, com publicações científicas a cada cinco anos detalhando a evolução dos quadros clínicos. "O bacana é saber que os resultados no Brasil são absolutamente superponíveis com o que se tem na Europa e Estados Unidos", destaca o cirurgião, demonstrando a excelência na aplicação da técnica no país.
Histórias de vida transformadas
Gabriely Botjuk, estudante de Direito de 20 anos, é um exemplo vivo do sucesso do procedimento. Nascida com uma doença cardiovascular, ela passou pela cirurgia de Ross aos três anos de idade. "Eu sempre levei uma vida normal, nunca 'não pude' fazer alguma coisa. Sempre viajava, ia para a escola, passeio, festas das minhas amigas", conta a jovem, que hoje atua como voluntária no Hospital Pequeno Príncipe.
Para Gabriely, a cirurgia proporcionou uma liberdade fundamental: "A cirurgia de Ross me deu essa liberdade de não precisar pensar em quando vou precisar reoperar. Se, por exemplo, vou estar bem se tiver filhos, para cuidar deles".
Desafios e perspectivas futuras
Apesar dos trinta anos de história no Brasil, a cirurgia de Ross ainda é pouco comum no país. Dados do Ministério da Saúde revelam que, das aproximadamente 10 mil trocas de válvulas cardíacas realizadas anualmente no Brasil, apenas cerca de 40 utilizam o procedimento de Ross.
Um dos principais obstáculos é a escassez de profissionais especializados. "Dentre as cirurgias cardíacas, a cirurgia de Ross é uma das mais complexas", afirma a cirurgiã cardíaca Carolina Limonge, que estuda para dominar a técnica nos próximos anos. "Acredito que vão uns cinco anos a mais de treinamento para eu ter confiança e preparo para conseguir fazer uma cirurgia [de Ross] sozinha", complementa.
Atualmente, a cirurgia está incluída no rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde (ANS), podendo ser realizada por planos de saúde privados, além de ser oferecida gratuitamente pelo SUS. Esta dupla possibilidade de acesso garante que mais pacientes possam se beneficiar desta técnica que, três décadas após sua introdução no Brasil, continua salvando vidas e transformando histórias.
