Consumo episódico de álcool eleva risco de danos hepáticos em um terço da população
Um estudo recente da Universidade do Sul da Califórnia revelou que beber muito álcool de vez em quando pode triplicar o risco de danos ao fígado em aproximadamente um terço da população adulta. A pesquisa, publicada na revista Gastroenterologia e Hepatologia Clínica, analisou dados de mais de 8 mil adultos entre 2017 e 2023, destacando que não é apenas a quantidade total de álcool consumida ao longo do tempo que importa, mas também o padrão de consumo.
Padrão de consumo é determinante para o risco hepático
O estudo indica que episódios pontuais de ingestão elevada de álcool, como em finais de semana, podem aumentar significativamente o risco de lesões hepáticas, mesmo entre pessoas que bebem moderadamente. Um em cada três adultos possui doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (DHEM), e neste grupo, indivíduos que concentram muitas doses em um único dia têm até três vezes mais chances de desenvolver fibrose hepática avançada.
A fibrose hepática é uma condição caracterizada por cicatrizes no fígado, que pode evoluir para cirrose. A DHEM está associada a fatores como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e colesterol alto, condições que já aumentam o risco de problemas no fígado.
Metodologia e resultados alarmantes
Os pesquisadores utilizaram dados de adultos submetidos à elastografia hepática, um exame de imagem que mede a elasticidade do fígado. Entre 8.006 indivíduos analisados, 4.571 tinham doença hepática esteatótica (DHE). Nos casos de MASLD (doença hepática associada a fatores metabólicos), 15,9% apresentavam consumo episódico excessivo, associado a maior risco de fibrose significativa e avançada.
O consumo episódico excessivo foi definido como quatro ou mais doses em um dia para mulheres e cinco ou mais para homens, ao menos uma vez por mês. Este padrão foi associado a um risco até três vezes maior de fibrose hepática avançada. Os resultados mostram que distribuir a ingestão ao longo da semana é menos prejudicial do que concentrar grandes quantidades em um único dia.
Sobrecarga do fígado e inflamação
De acordo com os autores, ingerir grandes quantidades de álcool de uma só vez pode sobrecarregar o fígado, aumentando a inflamação e favorecendo o surgimento de cicatrizes no órgão. Esse efeito pode ocorrer tanto de forma direta quanto indireta, especialmente em pessoas que já possuem fatores de risco metabólicos.
O hepatologista Raymundo Paraná, professor titular de gastro-hepatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, explica que toda ingestão alcoólica aumenta a produção de acetaldeído, uma substância pró-inflamatória e pró-fibrogênica que pode elevar a deposição de fibrose no fígado. "Isso faz o indivíduo evoluir para cirrose hepática e aumenta a inflamação que também estimula a fibrose", alerta o médico.
Tendência de aumento preocupa especialistas
O estudo também destaca que a doença hepática relacionada ao álcool mais que dobrou nas últimas duas décadas. Entre as possíveis causas estão o aumento do consumo durante a pandemia e o crescimento de condições como obesidade e diabetes. Os pesquisadores alertam que o comportamento de beber muito em ocasiões pontuais é comum e precisa ser mais considerado por médicos e pela população.
Mais da metade dos adultos analisados relataram esse padrão de consumo. Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de repensar não apenas o quanto se bebe, mas como o consumo acontece. Mesmo quem se considera um bebedor moderado pode estar exposto a riscos elevados ao concentrar a ingestão de álcool em poucos momentos.
Abstinência pode reverter complicações hepáticas
Outro estudo internacional já indicou que parar de beber pode não apenas frear, mas também reverter danos graves no fígado, inclusive em pacientes com cirrose avançada. A pesquisa acompanhou 633 pacientes com cirrose alcoólica em 17 centros especializados na Europa e na Ásia, apontando que a abstinência completa e mantida pode levar à recuperação funcional do órgão e à resolução de complicações em até um terço dos casos.
Ao longo de cinco anos, cerca de um terço dos pacientes apresentou recompensação completa, deixando de ter complicações e recuperando a função hepática. A cirrose hepática, marcada pela cicatrização progressiva do fígado, é frequentemente causada pelo consumo excessivo de álcool e pode levar a complicações graves.
Riscos adicionais e alertas importantes
Paraná acrescenta que o álcool altera também as células do sistema imunológico, aumentando o risco de tumores. "O álcool diminui as células de vigilância para tumores e o paciente com doença hepática esteatótica tem maior risco", afirma. Além disso, o álcool altera o perfil lipídico do paciente, aumentando triglicerídeos e o colesterol LDL, o que pode piorar desfechos não só hepáticos, mas também cardiovasculares.
Especialistas alertam ainda para a síndrome de abstinência alcoólica, que pode ocorrer em indivíduos com dependência de álcool quando decidem parar de beber. Os sintomas incluem palpitações, sudorese, agitação, irritação, inquietude, convulsões e até alucinações. Por isso, é recomendado que essas pessoas procurem assistência médica antes de interromper o consumo.



