Anvisa autoriza uso de Mounjaro para tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou oficialmente nesta quarta-feira, 22 de abril de 2026, a utilização do medicamento Mounjaro para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes brasileiros com idades entre 10 e 17 anos. Esta decisão representa uma expansão significativa das opções terapêuticas disponíveis para essa faixa etária, que anteriormente contava com alternativas mais limitadas para o controle da doença.
Contexto epidemiológico preocupante no Brasil
O Brasil atualmente figura entre os dez países com maior número de casos de diabetes tipo 2 na população infanto-juvenil, um cenário que reflete mudanças profundas no perfil epidemiológico nacional. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes, aproximadamente 213 mil adolescentes convivem com a doença em território brasileiro, enquanto outros 1,46 milhão encontram-se em estágio de pré-diabetes.
Este aumento expressivo está diretamente relacionado ao crescimento da obesidade infantil no país, onde atualmente um em cada três adolescentes apresenta excesso de peso. A doença, que até recentemente era considerada predominantemente restrita ao público adulto, vem se manifestando de forma cada vez mais precoce entre a população brasileira.
Base científica robusta para a aprovação
A decisão da Anvisa fundamenta-se em um estudo internacional de fase 3 denominado SURPASS-PEDS, publicado em setembro de 2025 na renomada revista científica The Lancet. Esta etapa representa a fase final de avaliação antes da liberação ampla de um medicamento, quando se analisam em maior escala tanto a eficácia quanto a segurança do produto.
Na pesquisa, adolescentes diagnosticados com diabetes tipo 2 foram divididos em grupos que receberam o medicamento ativo ou placebo (substância sem efeito terapêutico). Durante 30 semanas de acompanhamento, os pesquisadores monitoraram indicadores críticos da doença, com resultados expressivos em diversos parâmetros.
Resultados clínicos promissores do tratamento
O principal marcador avaliado foi a hemoglobina glicada, exame que reflete a média da glicose no sangue nos últimos três meses e funciona como um "termômetro" do controle do diabetes. Entre os participantes que utilizaram o Mounjaro, observou-se uma queda média de 2,2 pontos percentuais neste indicador, partindo de um valor inicial aproximado de 8%.
Mais impressionante ainda: entre os adolescentes que receberam a dose de 10 mg do medicamento, 86,1% conseguiram atingir a meta considerada ideal para o controle da doença, com hemoglobina glicada igual ou inferior a 6,5%.
Impacto significativo no peso corporal
Além dos benefícios glicêmicos, o estudo também avaliou o impacto do tratamento no peso dos participantes, utilizando o índice de massa corporal (IMC) ajustado para idade e fase de crescimento. Na maior dose testada, registrou-se uma redução média de 11,2% no IMC ao longo das 30 semanas de acompanhamento.
Este resultado é particularmente relevante considerando que o excesso de peso constitui um fator de risco fundamental para o desenvolvimento e agravamento do diabetes tipo 2 na população mais jovem.
Perfil de segurança adequado para a faixa etária
Em relação à segurança, o perfil observado no estudo foi semelhante ao já conhecido para esta classe de medicamentos, denominada incretinas. Não houve registro de episódios de hipoglicemia grave – uma das principais preocupações no tratamento do diabetes – e poucos pacientes interromperam o uso devido a efeitos adversos.
Os efeitos colaterais mais comuns foram de natureza gastrointestinal, incluindo:
- Diarreia
- Náusea
- Vômito
Em geral, estas manifestações foram classificadas como leves a moderadas e ocorreram principalmente durante o período inicial do tratamento, fase de ajuste das dosagens.
Ampliação do arsenal terapêutico nacional
Até esta decisão, o Mounjaro estava liberado no Brasil apenas para uso em adultos, tanto para controle do diabetes tipo 2 quanto para manejo do peso e, em casos específicos, para tratamento da apneia do sono associada à obesidade. A nova autorização representa um avanço importante na abordagem de uma condição que vem apresentando crescimento preocupante entre crianças e adolescentes brasileiros.
A ampliação das opções terapêuticas chega em um momento crucial, quando o sistema de saúde brasileiro enfrenta o desafio de oferecer tratamentos adequados para uma população cada vez mais jovem afetada por uma doença tradicionalmente associada à idade adulta.



