Mito da 'andropausa' e banalização da testosterona preocupam especialistas
Nos últimos anos, tem se observado uma multiplicação alarmante de prescrições de testosterona para homens, muitas vezes sem critérios médicos sólidos que justifiquem tal intervenção. O discurso da "reposição hormonal masculina" ganhou força no imaginário popular, como se os homens experimentassem algo semelhante à menopausa feminina e devessem recorrer igualmente à reposição de hormônios perdidos.
Equivalência falsa entre gêneros
Essa equivalência é completamente falsa aos olhos da ciência e da boa medicina. Enquanto as mulheres param de produzir hormônios em determinado momento da vida, os homens, em sua grande maioria, mantêm níveis normais de testosterona mesmo em idade avançada. Não é por acaso que o termo popular "andropausa" nem mesmo existe na literatura médica reconhecida.
Na prática, o que tem sido chamado – erroneamente – de "reposição hormonal masculina" não passa de uma terapia anabolizante disfarçada. Estatisticamente, apenas 17% dos homens na faixa dos 40 aos 80 anos apresentam níveis de testosterona inferiores ao mínimo considerado normal. Mais preocupante ainda: apenas 2,1% deles têm critério diagnóstico para, de fato, referendar necessidade de reposição hormonal.
Números reveladores sobre a real necessidade
Conforme estudos recentes, essa prevalência é de apenas 0,1% entre homens de 40 a 49 anos e de 5,1% entre os de 70 a 79 anos. Existe sim um declínio natural na produção de testosterona ao longo do envelhecimento, mas este processo é gradual e representa um problema real para um número muito reduzido de pacientes, como revelam claramente os números.
O que tem ocorrido na prática clínica é que a batalha contra o processo natural do envelhecimento, antes protagonizada principalmente por mulheres, chegou com força total ao universo masculino. Agora, os homens vêm buscando nos hormônios a solução mágica para problemas diversos como baixa libido, cansaço persistente, obesidade, controle do diabetes e até melhora da potência sexual.
Riscos graves do uso indevido
Enganam-se, porém, aqueles que pensam que um simples frasco de comprimidos pode resolver todas essas questões da noite para o dia. Na verdade, o aspecto mais preocupante é ultrapassar os níveis normais de testosterona, o que ocorre frequentemente quando se faz uso do hormônio sem real necessidade médica.
As consequências podem ser graves e incluem desde problemas estéticos como acne e queda de cabelo até alterações hepáticas significativas, arritmias cardíacas, cardiomiopatia, crescimento da próstata, elevação do PSA, maior incidência de infarto do miocárdio e aceleração do crescimento de tumores prostáticos.
Impactos comportamentais e sociais
Além desses efeitos físicos, há ainda o impacto comportamental que merece atenção. Estudos científicos mostram que níveis elevados de testosterona aumentam significativamente a agressividade e podem influenciar até mesmo o risco de violência sexual, como observado em pesquisas com animais. Ignorar esse dado é fechar os olhos para aspectos sociais de grande relevância.
Linguagem que mascara a realidade
Muitas vezes, o uso indiscriminado da substância vem mascarado por uma linguagem suavizada. Termos como "reposição" ou "modulação hormonal" criam uma percepção mais branda do tratamento, mas o fato científico é claro: não se pode repor o que não está faltando. A administração do hormônio sem que haja deficiência comprovada é, por definição, anabolização.
Chamar esse tratamento de reposição é, no mínimo, uma estratégia de marketing questionável. Como costumo orientar meus pacientes, experimentem contar em uma reunião de família e amigos que estão recebendo terapia anabolizante – em vez de usar a expressão "reposição hormonal" – e observem atentamente a reação daqueles que lhes querem bem de verdade.
Critérios rigorosos para casos específicos
Há, é verdade, situações específicas que podem ser tratadas com o hormônio, como o chamado hipogonadismo de início tardio. No entanto, seu diagnóstico deve ser feito mediante critérios rigorosos e bem estabelecidos: duas dosagens matinais de testosterona livre abaixo de 220 pmol/ml, associadas a sintomas específicos como baixo desejo sexual, ereção matinal fraca e disfunção erétil comprovada. Fora desses parâmetros, o tratamento não se sustenta do ponto de vista médico.
Orientações para qualidade de vida real
A banalização da testosterona representa um erro médico e social de grandes proporções. Homens que buscam genuinamente qualidade de vida devem ser orientados para o básico que realmente funciona: alimentação saudável e equilibrada, exercícios físicos regulares, sono adequado e reparador, abandono definitivo do tabagismo, controle rigoroso de doenças crônicas como diabetes, hipertensão e obesidade com medicação adequada.
O uso de remédios específicos para libido e ereção, quando necessário, apresenta muito mais eficiência no tratamento dessas condições específicas. Todos esses fatores exercem impacto real e comprovado sobre libido, energia vital e bem-estar geral. A testosterona só deve ser utilizada quando há diagnóstico claro e inequívoco, sempre sob monitoramento médico rigoroso e contínuo.
Conclusão: chamar as coisas pelo nome certo
Em resumo, o que andam chamando popularmente de "andropausa" não passa de um mito sem fundamentação científica. Existe uma tendência perigosa e crescente de medicalizar o envelhecimento masculino com hormônios que, em excesso, podem causar muito mais danos do que benefícios reais.
É hora de chamar as coisas pelo nome certo: reposição sem deficiência comprovada é anabolização – e transformar anabolização em moda médica é brincar perigosamente com a saúde de milhões de homens brasileiros. A busca por soluções reais para o bem-estar masculino deve passar longe de tratamentos hormonais desnecessários e potencialmente perigosos.



