Estudo inédito revela dados alarmantes sobre microcefalia pós-epidemia de zika
Uma década após a epidemia de zika vírus que causou uma explosão de casos de microcefalia no Brasil, um estudo científico de grande porte traz novas revelações sobre o perfil das crianças afetadas. Pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acompanharam 843 meninos e meninas nascidos entre 2015 e 2018, produzindo o maior levantamento já realizado sobre o tema.
Metodologia e abrangência da pesquisa
O estudo abrangeu nove cidades das regiões Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil, com a maioria das crianças provenientes de Pernambuco e Bahia. A distribuição geográfica dos pacientes analisados foi detalhada da seguinte forma:
- Recife — 196 crianças
- Salvador — 242 crianças
- São Luís — 106 crianças
- Rio de Janeiro — 90 crianças
- Aracaju — 76 crianças
- Manaus — 10 crianças
- Belém — 9 crianças
- Ribeirão Preto (SP) — 34 crianças
- Jundiaí (SP) — 80 crianças
Os resultados foram compilados em um artigo publicado no dia 29 de dezembro na revista científica PLOS Global Public Health, sediada na Califórnia, Estados Unidos.
Descoberta surpreendente: microcefalia pós-natal
Entre as revelações mais impactantes da pesquisa está o fato de que 20,4% das crianças (172) desenvolveram microcefalia após o nascimento. Conforme explicou o infectologista Demócrito Miranda, professor da UPE e um dos 49 pesquisadores que assinam o artigo, essas crianças nasceram com a cabeça de tamanho normal, mas apresentavam danos cerebrais decorrentes da infecção pelo zika vírus.
"Elas nasceram com a cabeça de tamanho normal, mas tinham um dano cerebral que não permitiu o crescimento do cérebro e, portanto, elas desenvolveram a microcefalia depois de nascidas", detalhou o especialista. "O tamanho da cabeça era dentro da faixa considerada como normal. No entanto, o crescimento do cérebro não acompanhou o crescimento do restante do corpo devido às alterações já presentes."
Gravidade dos casos e necessidade de cuidados
O estudo revelou ainda que 63,9% das crianças monitoradas (384) apresentam microcefalia em grau severo, exigindo cuidados multidisciplinares permanentes. Das 843 crianças avaliadas, 601 foram diagnosticadas com microcefalia ao nascer, sendo que 217 têm a condição em grau moderado.
Demócrito Miranda destacou a importância do apoio especializado para essas famílias: "São famílias que vão ficar trabalhando em função dessas crianças e é preciso que o sistema se organize melhor ainda para dar uma assistência mais completa. Elas precisam de cuidados permanentes, e esses cuidados garantem uma qualidade de vida melhor das crianças e das famílias."
Manifestações clínicas e anomalias associadas
Além da má-formação craniana, a pesquisa identificou outras condições frequentemente associadas à microcefalia causada pelo zika vírus. Entre as manifestações mais comuns estão:
- Deformidades nos pés e nos dedos das mãos
- Hérnia umbilical e inguinal (dentro do intestino)
- Estrabismo
- Ventriculomegalia (dilatação de ventrículos cerebrais)
- Calcificações intracranianas
- Alterações neurológicas diversas
O professor Miranda explicou que "[a pesquisa] tem algumas coisas que reforçam o que havia sido descrito, de achados mais frequentes, de imagem, de ventriculomegalia, de calcificações intracranianas, de alterações neurológicas".
Impacto científico e perspectivas futuras
Este estudo representa um marco na compreensão das consequências da epidemia de zika vírus, padronizando a coleta de dados e oferecendo análises mais completas sobre o tema. "Esse tipo de trabalho permite à gente ter respostas mais consistentes em relação ao que vinha sendo descrito", afirmou Miranda. "Os trabalhos iniciais eram pequenas séries de casos, grupos menores. Hoje a gente está consolidando um achado em 843 crianças. E isso dá uma caracterização mais detalhada."
A pesquisa evidencia a necessidade contínua de investimento em saúde pública e suporte multidisciplinar para as famílias afetadas, destacando que os efeitos da epidemia de zika continuam a demandar atenção e recursos uma década após seu auge.