Projeto de Itapetininga leva escrita criativa para povos vulneráveis ao redor do mundo
Na comunicação entre diferentes culturas, a barreira linguística muitas vezes se apresenta como um obstáculo significativo, especialmente quando não há domínio mínimo do idioma predominante. Contudo, mesmo diante dessa dificuldade na transmissão de mensagens, o ser humano, independentemente de sua localização geográfica, recorre a duas habilidades fundamentais para se fazer compreender: a criatividade e a imaginação.
Inspiração que vem da infância
Esses atributos sempre estiveram presentes na trajetória de Ismael Tavernaro Filho. Nascido e criado em Itapetininga, no interior de São Paulo, ele foi vizinho de Edson de Abreu Souza, conhecido na cidade como “Poeta do Monte Santo”. “Eu trabalhava como servente de pedreiro durante o dia e em uma pizzaria à noite. Cresci ouvindo contos, histórias e poesias do Poeta do Monte Santo. No meu pouco tempo de descanso, eu cuidava do meu sobrinho, então, quando descansava o corpo, nós íamos criando histórias como uma forma de brincadeira. Inventávamos personagens e eu vi que isso funcionava”, recorda Ismael.
A imaginação fértil levou Ismael a idealizar e estruturar o projeto “Dando Asas à Imaginação”, desenvolvido pela editora que ele próprio fundou. Realizada desde 2020, a iniciativa não se limita a um evento pontual e possui caráter totalmente filantrópico, com ações voltadas especificamente para comunidades em situação de vulnerabilidade social em diferentes partes do mundo.
Transformando crianças em autores
“Nós acreditamos que é a partir da literatura e da educação que conseguimos modificar algo. As crianças são 'terrenos férteis' e nosso projeto é transformar as crianças em autores das próprias obras. Parte do valor dos livros vendidos pela editora, que surgiu para manter projetos sociais, são utilizados de forma filantrópica”, explica Ismael.
Além de percorrer 24 estados brasileiros, Ismael e sua equipe já estiveram em dez países culturalmente diversos, incluindo Bolívia, Namíbia e Uruguai. Durante as oficinas, os participantes são convidados a escrever um livro em tempo real, inspirado diretamente na própria realidade em que vivem.
“Nós formamos um círculo e vamos criando personagens, um vilão, toda uma história. É uma maneira muito eficaz de fazer os seres humanos criarem apreço pelo 'objeto' livro. Isso é sempre feito dentro da realidade de cada um. Por exemplo, a história que criamos com as crianças da favela da Rocinha é diferente da história que criamos com as crianças na comunidade indígena do Xingu”, detalha o idealizador.
Prioridade para regiões isoladas
Ismael enfatiza que o projeto prioriza regiões isoladas, onde o acesso à educação e à literatura é extremamente limitado. Mesmo sem dominar os idiomas locais, ele relata que a recepção das comunidades costuma ser calorosa e que o número de crianças atendidas ao longo das ações é praticamente incalculável.
“Não há muitos locais para fazer e o projeto não precisa de muita infraestrutura. Quando fomos a Teresina de Goiás, não tinha sequer uma escola, então fizemos no chão batido mesmo. Em casos assim, utilizamos praça pública ou algo do tipo”, comenta. “A recepção sempre foi muito boa. A fase do projeto que estivemos na Rocinha, no Rio de Janeiro, me marcou muito. Precisamos pedir autorização para entrar na favela. Lá, existe uma consciência que, mesmo as pessoas que estão naquele meio, elas não querem que os filhos e sobrinhos sigam o mesmo caminho. Fomos muito respeitados por todos”, completa emocionado.
Impacto social e expansão contínua
Atualmente residindo em Cerqueira César, também no interior paulista, Ismael continua promovendo eventos voltados à literatura. Foi em uma das edições do projeto que ele possibilitou que estudantes da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais lançassem o primeiro livro em todo o estado de São Paulo.
“São histórias que eu nunca vou esquecer. Nesta ocasião, as pessoas não acreditaram muito na ideia no começo, mas a coisa fluiu de uma maneira muito linda e emocionante. No Brooklin, em São Paulo, estive em uma instituição de tratamento contra o câncer infantil. Por duas horas e meia, todo mundo esqueceu onde estava e as crianças esqueceram o que estavam passando. Foi uma simbiose literária muito bacana”, destaca.
A edição mais recente reuniu 30 crianças em Havana, capital de Cuba, durante seis dias de atividades intensas. Para Ismael, porém, o trabalho não termina com o retorno ao Brasil: os livros produzidos pelas crianças são finalizados e colocados à venda, e todo o lucro é revertido às comunidades atendidas, em benefício direto dos próprios moradores.
“Não é um projeto pontual. As atividades acabam, mas a comunidade continua sendo beneficiada de alguma forma. Esse retorno, para nós como seres humanos, está sendo de uma riqueza gigantesca. Ver como as coisas funcionam nos bastidores está sendo muito construtivo para mim”, relata.
Futuro promissor: construção de escola em Angola
O organizador pretende ampliar o projeto significativamente por meio da editora. Entre as iniciativas em andamento está a construção de uma escola fixa em Angola, com o objetivo claro de garantir e facilitar o acesso das crianças da região à educação formal.
“Quando fizemos o projeto social por lá, surgiu a oportunidade de abrir uma filial da editora em Angola. Temos sete irmãos angolanos que trabalham lá. Agora, estamos construindo uma escola que atenderá 40 crianças, com alimentação e educação de fato. É o suprassumo do que imaginávamos no começo”, finaliza com esperança Ismael Tavernaro Filho, demonstrando que a escrita criativa pode, de fato, dar asas a transformações sociais profundas e duradouras.



