Banco Palmas completa 28 anos como pioneiro da inclusão financeira no Brasil
No coração do Conjunto Palmeiras, na periferia de Fortaleza, uma iniciativa comunitária transformadora completa 28 anos de atuação: o Banco Palmas, considerado o primeiro banco comunitário do Brasil. Fundado em janeiro de 1998 pela Associação dos Moradores do bairro, o projeto nasceu com o objetivo claro de reduzir a profunda desigualdade social e econômica que caracteriza a região.
Contexto de vulnerabilidade social
O Conjunto Palmeiras está inserido na Regional 9 de Fortaleza, uma área que também engloba os bairros Cajazeiras, Barroso, Jangurussu, Parque Santa Maria, Ancuri e Pedras. Todos esses territórios apresentam um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) inferior a 0,500, classificado como muito baixo. No caso específico do Conjunto Palmeiras, o IDH é de apenas 0,12, refletindo as condições precárias de vida da população.
Joaquim Melo, diretor do Banco Palmas, relembra as origens do projeto: "A ideia começou a ser construída em 1997, a partir de uma pesquisa da associação para entender por que os moradores estavam saindo do bairro. Eles eram pobres economicamente e quando precisavam de dinheiro para, por exemplo, fazer uma cirurgia, vendiam seus barracos e iam embora". Diante desse cenário desafiador, a comunidade decidiu criar seu próprio sistema financeiro.
Moeda social e microcrédito como ferramentas de transformação
Uma das marcas mais distintivas do Banco Palmas é sua moeda social própria, chamada "Palmas". Esta moeda pode ser utilizada por moradores e comerciantes cadastrados em estabelecimentos credenciados dentro da comunidade, promovendo a circulação de recursos no próprio território.
O sistema funciona de maneira integrada: "Você vem no banco, cria sua conta, uma espécie de conta corrente, e a partir disso pode usar os serviços do banco, pagar contas, pagar boleto, receber seu salário", explica Joaquim Melo. Além disso, os usuários têm acesso a três tipos de crédito:
- Crédito para produção (como comprar uma máquina de costura)
- Crédito para moradia (até R$ 20 mil para reformas)
- Crédito para consumo (para comprar de artesãos locais)
A conversão entre a moeda Palmas e o real pode ser feita a qualquer momento através do aplicativo do banco, funcionando como "um Pix interno", nas palavras do diretor.
Impacto econômico e social mensurável
Os números demonstram o alcance da iniciativa:
- Mais de 20 mil pessoas possuem contas digitais no banco
- Mais de 3 mil comércios aceitam a moeda social
- Em 2025, a circulação da moeda movimentou quase R$ 1 milhão na economia local
Edilson Soares, empreendedor local, testemunha: "Sempre que eu entrava em dificuldade, recorria ao Palmas. Sempre a gente pegava para investir no comércio, porque o comércio era pequenininho e a gente queria ampliar, comprar novos equipamentos".
Para os comerciantes, a iniciativa traz vantagens concretas: cada compra feita com a moeda Palmas gera uma taxa de apenas 2% (inferior às cobranças de operadoras tradicionais), e esse valor é direcionado para um fundo de crédito que financia pequenos negócios do bairro.
Inovações além do sistema financeiro
O Banco Palmas não se limita aos serviços bancários. Recentemente, lançou o Palmas Solar, primeiro programa de usina solar solidária do Ceará, que permite às famílias de baixa renda obterem descontos de até 70% na conta de energia elétrica.
"Ele é um negócio associativo, que as famílias se associam, gera energia mais barata para as pessoas. A gente consegue economizar um quarto do custo de energia para as pessoas e elas não precisam fazer o investimento inicial", detalha Joaquim Melo.
Elisângela, moradora participante do programa, relata: "Por exemplo, a minha conta de energia hoje está vindo R$ 110 no valor total. Estou pagando esse valor de 54,90". A economia gerada pode ser reinvestida no comércio local, fortalecendo ainda mais o ciclo econômico comunitário.
Reconhecimento e expansão
O modelo desenvolvido no Conjunto Palmeiras inspirou a criação de 182 bancos comunitários em todo o Brasil, além de atrair o apoio do governo federal a partir de 2005. Nos primeiros anos, o projeto contou com doações internacionais de países como França e Inglaterra.
Joaquim Melo reflete sobre o sucesso da iniciativa: "O motivo de sucesso é porque existe uma extraordinária capacidade produtiva nas comunidades, nas periferias. Aqui tem quase todo tipo de produto, o que falta é oportunidade de fomentar e ter dinheiro para fomentar esses comércios locais".
Enquanto Fortaleza se prepara para celebrar 300 anos em 2026, o Banco Palmas segue como um exemplo concreto de como a organização comunitária pode criar alternativas econômicas viáveis em territórios historicamente negligenciados, provando que é possível construir desenvolvimento a partir das próprias comunidades.



